quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Do outro lado

Eu andava esquisita. Inquieta, ansiosa, assustada. Comecei a ter medo de me deslocar entre os cômodos do meu apartamento, um cubículo de 30m2 . Passei a dormir de luz acesa, a manter a televisão ligada e a me esconder debaixo do edredom a cada som de árvore balançando ou vizinho arrastando cadeira.

Eu só sabia que temia. Não tinha certeza do quê, mas temia. Todas as noites me traziam aquele pânico, as palpitações que faziam meu coração querer sair pela boca.

Foi quando decidi conversar sobre isso com alguém que considerei ser a pessoa adequada para este assunto:

- Lara, seja sincera consigo e admita seu medo.

- Tá bem... Eu tenho medo de alguém querer se comunicar comigo. Alguém que...

- ... que desencarnou. É isso, Lara?

- Sim. - Frio na barriga, mãos trêmulas e suadas.

- Bem, pode ser que alguém realmente queira se comunicar com você. Não vejo problema nisso, nem motivo para ter medo. Você só terá contato com aquilo para o qual estiver apta e preparada. Não me parece que seja seu caso. - Ela disse isso com o mesmo semblante de quem diz: "E aí, beleza? Me vê um hotdog completo, por favor".

E era isso. Simples assim. Tudo ficou imensamente claro: todas as lembranças repentinas, todos os sonhos que tive, todas as vezes em que tive CERTEZA de que não estava sozinha: era só você. E, de fato, não havia motivo algum para ter medo de você. Nunca houve.

Desde então, durmo em paz. Antes de deitar, em voz audível, converso contigo. Sei que você me escuta. Quando te conto minhas angústias e te peço proteção, posso imaginar aquele sorriso sereno, tão tipicamente seu, me consolando, me garantindo que tudo vai ficar bem. Sinto fortemente a sua presença. E, quem diria, rezo todas as noites para senti-la cada vez mais.

Descobri que o AMOR é transcendental. Que louca, e que LINDA, essa coisa de sermos ligados por fios invisíveis de afeto e afinidade, mesmo que em planos distintos! É com emoção e, às vezes, lágrimas nos olhos, que identifico seus sinais na minha rotina: textos, pensamentos, palavras... Simplesmente sei que não estão ali por acaso.

Hoje, não tenho mais medo.
Aceito e sinto tudo com ternura.

E me deslumbro cada dia mais com essa coisa incrível que vai além da matéria, essa tal de ENERGIA.


"Ainda assim acredito
Ser possível reunimo-nos
Tempo tempo tempo tempo

Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo..."





segunda-feira, 3 de junho de 2013

A semana inteira


Pronto. Passou de meia-noite. Fim do domingo. Fim do descanso, das risadas, da visita tão esperada, daquela sensação maravilhosa de nada para fazer.

À sua frente, ela via a segunda-feira como um penhasco. Tudo tão profundo, que mal dava para enxergar onde terminava. Respirou fundo, engoliu o medo e, sem escolha, pulou.

Tamanha foi sua surpresa ao perceber que planava. Tudo ainda era escuro, ela não sabia o que havia pela frente, mas nada mais a atormentava. No lugar do medo, apenas uma estranha sensação de que alguém a protegia, de que ela estaria segura sob aquele pára-quedas invisível, que a fazia pairar sobre a névoa dos problemas e das frustrações e - quem diria! - até mesmo enxergar alguns feixes de luz.

Que viessem a segunda, a terça e a quarta-feira, junto com seus tropeços, retrabalhos, recomeços. Que viesse a quinta, com suas horas estranhamente mais longas. Que viesse a sexta-feira, trazendo expectativas e um chopp de fim de tarde.

Não importa o quão pesada e exaustiva fosse, ela decidira que a semana inteira teria gosto de sábado e domingo.

"Porque a vida, meu bem, tem a cara que eu quiser e a cor que eu pintar. E, nesta semana, eu decidi que será coloridamente linda."