terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Versinhos para sei-lá-quem

Eu já conheço seu rosto e esse ar de “sou foda” que ele sustenta.
Não se faça de sonso, pois você bem nota que te olho atenta.
A sua roupa engraçada cai bem com a sua cara de intelectual.
Você é diferente e eu tenho essa queda por quem não é igual.
Eu te vi vez ou outra, em meio aos gritos de pré-carnaval.
Mas você se dissipa, some de vista, volta a ser virtual.
Mas meu mundo é tangível, é pele, é toque e respiração.
É falar no ouvido, é segurar forte e perder o chão.
E, assim, voa livre a fertilidade do meu pensamento.
A tua casca, eu conheço.
Mas que raio de homem se esconde lá dentro?
Tal qual todo presente, o pacote é somente um mero floreio.
Todo mundo concorda que a embalagem importa...

...mas o que vale mesmo é sempre o recheio.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Doce ressaca

A festa tinha sido maravilhosa. Ela dançou até estragar os sapatos (novos), sentiu-se bonita com os acessórios e a produção que havia escolhido, estava com pessoas queridas e animadas e conheceu outras tantas pessoas super alto astral. No calor do momento, uma cervejinha caiu super bem. Entretanto, com a festa cada vez mais cheia de gente, uma vodka com gelo pareceu mais adequada para refrescar. 

Ela acordou em sua cama (ufa!), com as luzes acesas, a roupa da festa e a maquiagem completamente borrada. O mundo rodava, a cabeça doía como nunca, a boca seca pedia desesperadamente alguns milhares de litros d'água e o estômago, embrulhado, reclamava da falta de comida e do excesso de álcool. Uma palavra para aquela desgraça: ressaca. Das brabas. Daquelas que te fazem jurar não beber nunca mais.

Como parte do procedimento do dia seguinte à enfiada de pé na jaca, ela correu para o celular. Nenhuma chamada realizada de madrugada. Ainda bem! No whatsapp, entretanto, algumas surpresinhas, como um áudio enviado para o carinha que não tinha ido à mesma festa que ela. Embora tenha demorado uns 5 minutos para decifrar seu próprio dialeto trôpego, ela concluiu que não havia falado nada de mais, apenas respondido ao questionamento dele de como estava o evento e devolvido a mesma pergunta ao rapaz. Menos mal. As outras surpresas eram algumas mensagens de um número desconhecido. É. Acontece.

Próximo passo: ligar para a amiga que fora com ela à festa e fazer a boa e velha pergunta de quem bebeu horrores e apresenta lapsos de memória justo dos momentos mais estratégicos da noite: "O que foi que eu fiz, amigaaaaa????" Novamente, nada grave. Apenas relatos de situações engraçadas, muitas risadas, muita dança, muita energia bacana. As duas gargalharam ao telefone e concordaram que aquela havia sido uma noite e tanto!

Aliviada, desligou o celular e dormiu novamente. Acordou apenas às 16h. Ressaca é uma derrota mesmo, te faz passar mal e ainda perder o dia. Arrependida do exagero que cometera, foi tomar um banho, daqueles bem gostosos, para ver se, enfim, ressuscitava. 

E foi aí que ela se lembrou daqueles problemas, aqueles assuntos chatos que, dois dias antes, a fizeram chorar no meio da praça de alimentação do shopping. E se deu conta de que eles nem haviam passado por sua cabeça durante a festa. Ela estava tão alegre, rodeada de amigos e de música boa, que simplesmente esqueceu das dores do coração. OK que herdara, em troca, uma bela de uma dor de cabeça, mas isso não importava mais. 

Com ou sem ressaca, ter se permitido foi essencial para espantar as mágoas e fechar algumas feridas. Essa tal de terapia do riso era boa mesmo. Tudo bem, das próximas vezes ela iria maneirar, ninguém precisa beber todas para se divertir e, se continuasse nesse ritmo, não chegaria viva até o Carnaval. Mas assim, uma vezinha só, se jogar inteira na jaca foi mais do que divertido, foi necessário. Ela saiu do banho renovada, ressaca ralo adentro, e histórias fresquinhas para contar.
Corpo e alma curados, e a certeza de que tinha valido a pena.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

É proibido chorar

   Quando o choro veio na garganta, numa quinta-feira qualquer de Janeiro, ela não teve dúvidas: seria um dia “daqueles”.
   Estava no auge da TPM, a barriguinha-pochete que ganhara nas férias teimava em não sumir, uma pessoa muito amada estava com problemas de saúde, outra pessoa amada estava de mudança para o outro lado do mundo, as coisas não terminaram bem justo com aquele carinha que ela havia curtido pra caramba, logo com ele, que tinha um papo tão bacana e que parecia ser tão interessante. Pois é. PARECIA. “Nota mental: ‘Nem tudo que parece, de fato é’. Fazer desta frase meu mantra diário.”
   Todos esses motivos, somados, viraram uma bomba. E ela PRECISAVA explodir. Aquela tensão acumulada tinha que sair, ir pro espaço! Isso só aconteceria com um choro daqueles, de soluços audíveis, lágrimas jorrando como as chuvas em São Paulo, deixando sua aparência, sempre tão doce, em verdadeiro estado de calamidade pública. Era esse tipo de choro que estava por vir. Mas ela o engoliu. Obviamente, com um baita esforço. Mas engoliu.
   E por quê? Porque chorar era proibido. Como ficaria sua imagem no trabalho, caso caísse em prantos? Pobre menina imatura, sem inteligência emocional. Era isso o que pensariam dela. Na rua não dava, as pessoas a olhariam torto, umas penalizadas, outras curiosas até demais. Que tal num barzinho, com aquela boa amiga ouvinte? De forma alguma! O que iriam pensar? Que ela estava bêbada, com certeza.
   Ela olhava em sua volta e não encontrava nenhum espacinho para ficar triste. No Facebook, todos estavam plenamente felizes. No Instagram, todos estavam plenamente felizes, sarados, bronzeados e fazendo pose com seus paus de selfie. Na lei das redes sociais, a gente era obrigado a ser feliz.
De repente, uma nova onda de choro veio como Tsunami na garganta. Ela levantou da cadeira, correu para o hall, ia pegar o elevador e se trancar no banheiro da portaria. Não deu tempo. As lágrimas escorreram ali mesmo, no corredor social, com uma platéia do escritório vizinho assistindo perplexa, do outro lado da porta de vidro.
   “Quer saber? Que se danem. Estou chorando sim, estou triste pra cacete e preciso vomitar toda essa melancolia que toma conta de mim.” E foi com este pensamento que ela pegou o carro e foi almoçar no shopping, para refrescar a mente. Soluçou durante todo o percurso, urrou de dor, assustando o pobre do garoto que só queria ganhar um trocadinho fazendo malabarismo.

   Dentro e fora das lojas, gente horrorizada olhava para seu rosto completamente inchado, molhado e vermelho. Mas ela já não se importava mais. Só sabia que aquilo estava fazendo bem. Aos poucos, a tristeza aliviava, a ansiedade se esvaía e uma tímida serenidade surgia. “Podem me olhar, suas máquinas ambulantes. EU SOU HUMANA.” E terminou sua refeição calmamente, sentindo-se plenamente sincera consigo mesma e com seus sentimentos.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Um Conto Pernambucano

Eu, despretensiosamente, me deliciava com uma bela de uma tapioca no Alto da Sé. Para mim, aquilo era o retrato de um final de domingo feliz. Nada me faltava: tinha o Sol se pondo, uma paisagem linda de viver e aquele fluxo colorido e enérgico de gente bonita e descolada de Olinda.
Mal sabia eu que aquela cena estava, sim, incompleta. Faltava o personagem principal. Quis o destino que estivesse a menos de um metro de distância, apoiado, assim como eu, no balcão da barraca.
- Quanto é a tapioca, moça? A minha foi a de carne seca.
- Charque.
- Oi? - Eu olhei, um tanto quanto surpresa, para o dono da voz masculina ao meu lado.
Você, com os cabelos escuros e bagunçados, a barba densa e a pele bronzeada, sustentava um sorrisinho besta de deboche.
- Aqui se fala "charque". Não fala "carne seca".
- Ah, tá. Foi mal aí. Moça, tá aqui o dinheiro da tapioca de CHAR-QUE. - Minha voz em tom provocativo...
- Oxe, deixe de brabeza! Toda carioca é marrenta, mas tu é demais. Tu se amostra.
- Eu acho que você conheceu as cariocas erradas.
Pronto. Estava completo o elenco da história de nós dois.
A conversa permeou por múltiplos assuntos, presenciou o anoitecer em Olinda e terminou com uma carona para Recife. Desde então, você fez parte dos trechos mais poéticos da minha vivência pernambucana.
Foram risadas e cervejas ao som de Nação Zumbi. Foram mergulhos refrescantes no Pontal de Maracaípe, que sempre terminavam em uma boa prosa no Bar do Galo. No Baile Perfumado, você tentava me ensinar a dançar juntinho e, entre sorrisos e algumas pisadas no seu pé, eu me dava conta do quão diferentes nós éramos.
Você falava "oxe"; eu dizia "cara". Você era frevo e eu, samba. Eu, Flamengo; você, Sport. Eu, carioca; você, pernambucano. E, assim, nós vivíamos, às vezes na cadência de uma ciranda de Lia, outras vezes, embolados no compasso do Maracatu.
Entre um beijo roubado no Marco Zero e devolvido no Bar Central, você, tão bairrista e orgulhoso, cedia à minha carioquice aguda e cruzava a cidade, de Casa Forte à zona sul, só para ver o meu mais sincero sorriso se abrir com a tua chegada.
Nós dois preferíamos não pensar na minha partida, que se aproximava tão depressa quanto a quarta-feira ingrata, que cala os gritos de Carnaval. "Melhor assim", eu pensava. Deixei com o tempo a árdua tarefa de correr; dei a mim a doce tarefa de viver. E cada dia contigo seria vivido como se fosse o último.
No meu sonho recifense, eu era dona do roteiro e escolhia meu personagem.
E já estava decidido.
Eu seria, para sempre, a sua "moça bonita da praia de Boa Viagem".


Alceu Valença e Orquestra de Ouro Preto - La Belle De Jour



domingo, 11 de janeiro de 2015

O segundo encontro

Eu amo os segundos encontros. Considero-os infinitamente mais interessantes e reveladores do que os primeiros.
Por segundo encontro, entende-se tanto aquela ocasião planejada (por exemplo, aquele bom e velho choppinho marcado por whatsapp), como aquele momento completamente inesperado, tipo um esbarrão com o dito cujo bem na fila para pegar bebida na festa (se bem que, nesses casos, o encontro pode até ser meio forjado, caso você tenha visto o cara confirmar presença no evento do facebook e tenha se despencado até lá só por causa disso. Mas, enfim, vamos fingir que foi por acaso, né?).
Eu gosto de segundos encontros porque eles são, na minha opinião, "A Hora Da Verdade". Agora, ou vai, ou racha.

Na primeira vez, geralmente, estamos um tanto quanto nervosos, ou bêbados, ou produzidos demais, ou completamente descabelados e com a maquiagem borrada. Tenho a sensação de que nunca somos inteiramente nós mesmos em nosso primeiro contato com alguém. A insegurança do desconhecido, a incerteza do que virá em seguida, a ansiedade de especular o que o outro está pensando a nosso respeito... tudo isso colabora para que fiquemos mais travados ou para que, às vezes, esbanjemos uma segurança forçada, uma tranquilidade quase teatral.

E, assim, chegamos em casa, refletindo sobre as últimas horas passadas ao lado de sei-lá-quem. Formulamos conclusões precipitadas, baseadas em observações inconclusivas. Porque, convenhamos: qual o julgamento que podemos fazer de alguém com apenas um único contato?
E eis que surge a pergunta de um milhão de reais: "Será que nos veremos novamente?". É isso que torna os segundos encontros tão mágicos: eles são almejados, fantasiados.
Além disso, possuem múltiplos desdobramentos, nos apresentando sempre a novas perspectivas.

Por exemplo, nos casos de primeiros encontros um pouco frustrantes, ou até mesmo desastrosos, com aquela pessoa que parecia ser tão interessante, mas que simplesmente não entrou em sintonia com você: a conversa não fluiu, as vibrações não se encontraram, ou surgiu qualquer outro incidente menos nobre e nem tão místico assim. Pode parecer insanidade insistir no erro, mas acredite: nessas situações, segundos encontros são muito válidos. Eu diria, inclusive, que são necessários. Por um lado, podem apenas confirmar as más impressões do primeiro contato. Ainda assim, valem a pena: cada um segue o seu caminho, com a certeza da desarmonia entre os dois e o conforto de ter evitado frustrações futuras.

Por outro lado, podem nos reservar gratas surpresas, desfazer mal entendidos e nos deixar completamente pasmos com a constatação de que "caramba, era bem melhor do que eu pensava!". Nada melhor do que desconstruir uma imagem equivocadamente formulada sobre o outro ou sobre nós mesmos, jogar máscaras e armas no chão e simplesmente deixar fluir qualquer coisa boa que possa vir.

Não podemos esquecer dos segundos encontros que fecham portas. Aqueles que, depois de um primeiro encontro promissor, salpicado de "química" e esperanças, acaba por revelar uma realidade um tanto quanto amarga: vocês não combinavam tanto assim. Ele não é um príncipe encantado; o papo dela é um pouco chato; ele se mostrou carente demais; ela pareceu muito ciumenta. Há milhões de razões para uma segunda vez decepcionante. Nesse caso, que bom perceberem, logo cedo, que eram incompatíveis! Pouparam tempo e, talvez, algumas lágrimas. Ou, quem sabe, não vale uma terceira tentativa, só para ter certeza, para tirar a prova real?

Entretanto, há aquele segundo encontro que supera o êxito do primeiro, que confirma todas as boas expectativas que criamos. Por mais raras que possam parecer, tais situações de fato existem e dependem muito mais de nós mesmos do que de qualquer configuração cósmica ou simpatia amorosa. Trata-se de uma confluência de boas energias, de corações abertos e destemidos, de espíritos igualmente sedentos por certos estados de graça que só são alcançados quando nos desapegamos de pré-julgamentos e preocupações com opiniões alheias.

Nem preciso dizer que já passei por todas as situações descritas acima, embora, obviamente, tenha uma significativa queda por este último caso. Contudo, toda sorte de encontro é bem-vinda, seja o primeiro, o segundo, o terceiro ou o milésimo. Toda experiência com alguém nos traz aprendizado, enriquece nossa bagagem de vida ou, no mínimo, nos livra de uma roubada.
O que importa é se dar a chance de passar por isso e, principalmente, dar ao outro a chance de se apresentar, de mostrar a que veio e o que traz em sua mochila. E isso, meu bem, nem sempre acontece de primeira.

Logo, considere sempre a possibilidade de uma nova oportunidade. Você não irá se arrepender.

E viva os segundos encontros!



Teresa

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


Manuel Bandeira