domingo, 30 de novembro de 2014

Vinho e prosa em João Pessoa

O meu sotaque já não era mais um estranho solitário em meio ao falatório paraibano. Além do meu S pronunciado ao som de X, destacava-se o seu R arrastado, assim, bem forrrrte. O vinho foi pouco para tanto papo.
Aos poucos, fomos revelando os pedaços de caminho que nos levaram até ali. Já havíamos nos cruzado antes, já estivemos numa mesma configuração de tempo e espaço outras vezes, só bastava uma coincidência de olhares, um tropeço, um "desculpa, esbarrei em você sem querer".
Mas quis a vida que nos encontrássemos tempos depois, ali, naquele cantinho perdido numa ruazinha de João Pessoa. Aliás, foi incrível ver nos teus olhos o amor nutrido por aquela cidade. Aquele lugar que é o MEU refúgio, que me acolheu em todos os 24 verões lindamente vividos com tempero de sal e sol. Era mágico ter em comum contigo algo tão especial, algo que, até então, era tão MEU. Isso, de certa forma, conferia uma certa intimidade à ocasião. E foi por isso (ou, talvez, pelo vinho, que já ia para sua segunda garrafa) que eu me desarmei por completo. Ali, eu era feita só de sorrisos e boas histórias para contar.
Rio de Janeiro e São Paulo, tão diferentes, mas tão conectadas, ficaram ainda mais próximas. Muito além da Dutra, das inúmeras pontes aéreas, de Congonhas, do Santos Dumont. Estavam ali, numa mesma mesa, dividindo uma boa prosa, na minha amada Paraíba.
De repente, você parou, teu semblante observador fixo em mim, tuas palavras cessadas por alguns segundos.
...
- Você tem um espírito livre, Lara.
- Oi? Como assim?
- É isso que você passa para quem te vê. Eu vejo alguém que voa...

Naquela hora, não soube o que falar. Traduzi a surpresa com a tua constatação em (mais) um doce sorriso.

Agora, de volta para casa, revivendo mentalmente o fim de semana, eu saberia o que responder. Eu te diria que sim, sou movida a liberdade, essa é a minha essência. O meu coração voa, nômade que só ele, solto que só ele.

Entretanto, tenho a sensação de que, nessas voltas que ele dá, nesses vôos errantes, ele tende a mudar estranhamente sua rota, para tendenciosamente pousar em um mesmo lugar.

O destino?

João Pessoa, PB.


domingo, 2 de novembro de 2014

Surpresas de um fim de domingo

Você veio juntamente com o fim de domingo. Trouxe cervejas, música boa e uma conversa gostosa. Meu corpo e mente, mesmo cansados de um fim de semana intenso, fizeram questão de se manterem acordados, consumindo minha última reserva de energia. Valia a pena, nem que fosse para matar a curiosidade que eu vinha acumulando há tempos, essa vontade intrigante de descobrir você.
Quando menos percebi, estávamos em sintonia. O papo fluía naturalmente, você me arrancava risadas sinceras e eu me sentia completamente à vontade, completamente eu mesma. De repente, tudo ficou para trás, como uma lembrança distante: a viagem, os últimos eventos, o Farol da Barra... Todo o fim de semana virou uma fotografia borrada, com um único ponto nítido, bem ali no canto, onde era possível distinguir eu e você...
Como regra da vida, o que é bom passa rápido. Tinha tanto mais a ser dito, tanta troca e tanto tato! Mas, no fim, ficamos apenas eu e a segunda-feira, que acabara de chegar. A diferença é que, desta vez, ela não teria aquele ar pesado, aquela melancolia típica. Ela veio doce e leve, me pondo sorrisos no canto da boca e me fazendo descobrir uma sutil simpatia pelos finais de domingo...
A cor da minha semana foi um tanto mais viva! E quem deu o tom, meu bem, foi você. Volte sempre.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Joguinhos

De repente, não mais que de repente, eu me vi solteira. Junto com meu novo status, vieram os conselhos e os inúmeros alertas de quem está "na luta" há mais tempo. 
Ouvi dizer que, em virtude do alto número de mulheres em comparação ao de homens, estes estão mais seletivos e indiferentes do que nunca. Logo, para se destacar, era necessário perder uns quilinhos ("não muitos, apenas o suficiente para dar aquela secada na barriga"), caprichar nos looks da night ("umas peças coringas, sabe? umas três saias, dois shortinhos, 5 blusinhas, um vestido pretinho básico, 3 pares de sapato e uns acessórios para compor - isso é o BÁSICO, ok?") e, claro, arrasar na make ("manda um olhão todo trabalhado no preto + um efeito 'gatinha' que não tem erro!"). 

Diante disto, cheguei à conclusão de que eu deveria me reinventar completamente, talvez nascer de novo. Quando eu já estava prestes a iniciar a revolução no meu guarda-roupa e a entrar num período detox com sucos milagrosos de sei-lá-o-quê, fui informada de que o código de aparência e vestimenta era apenas uma pequena parte do "guia de sobrevivência da vida de solteira". O grande 'X' da questão era, na verdade, comportamental.

Fui, então, introduzida à cartilha de conduta padrão para você que está sozinha, nesse mundão de meu Deus, em busca da tampa da sua panela, ou simplesmente à procura de ficadas esporádicas e encontrinhos casuais. E o segredo de tudo está em...jogar. Jogue, jogue muito, apenas jogue.

Isto significa que você não pode, de forma alguma, responder a uma mensagem no whatsapp no exato momento em que a visualizou. Aliás, seria interessante que você não respondesse nem no mesmo dia. Isto passaria uma imagem de que você está carente, desesperada ou de que é fácil demais. 

E, veja bem: falamos somente dos casos em que você foi procurada no aplicativo, em que um retorno seu é necessário. Ou seja: iniciar uma conversa do nada é terminantemente proibido. Sugerir um 2o encontro, um choppinho talvez, está fora de cogitação. Isto afastaria o cara de vez e te jogaria no limbo da espera por uma resposta que nunca chegará, embora você tenha visto que seu (ex) pretendente já ficou online por diversas vezes...

Esses ensinamentos me foram passados com ilustrações e cases da vida real: ouvi diversos relatos e tive acesso a incontáveis prints de conversas no whatsapp. Todos me mostraram diálogos evasivos, respostas prontas, salpicadas de frieza e desapego forçados, numa luta travada por ambos os lados, cujo desafio era ver quem mais cagava  na cabeça do outro, quem melhor conseguia transmitir a imagem de "sou independente, bem resolvido e nem tô muito afim de você".

Foi aí que eu me desesperei. Abalada com o recente fim de um relacionamento, eu simplesmente não estava preparada para lidar com nenhum tipo de rejeição. Comecei, então, a tentar me encaixar ao novo "way of life" que tão detalhadamente me haviam descrito. Curiosamente, ao invés de ser tomada pela tranquilidade de seguir uma fórmula de sucesso, eu me vi completamente insegura. Eu não saía de casa sem antes testar pelo menos uns quatro looks diferentes, todos devidamente retirados de blogs de moda. Pedia às minhas amigas que me maquiassem, pois eu não sabia fazer uma make poderosa. Parei de frequentar os points lotados de gente conhecida na praia e aboli qualquer tipo de roupa que deixasse qualquer pedaço de barriga à mostra - eu não tinha corpo suficiente para esse tipo de ousadia.

A situação piorou quando eu me vi aprovando com minhas amigas o tipo de resposta que deveria dar ao carinha no whatsapp, calculando o tempo exato em que deveria deixá-lo no vácuo para que então eu pudesse conquistá-lo com a minha indiferença (???) e meu jeito super desapegado e descolado de ser.

E foi assim que eu me deparei com uma crise horrorosa de auto-estima, daquelas que fazem você se anular. Eu já não me reconhecia mais e via que nada disso tinha valido a pena, pois eu estava me sentindo feia, esquisita e totalmente sem contexto. 
E aí a ficha caiu. Eu decidi acabar com essa palhaçada e ser simplesmente EU MESMA, com tudo aquilo que vem junto no pacote 'Lara': meu corpo, minhas roupas, meu estilo (ou a falta dele - afinal, que porra é essa de estilo?), minha forma de pensar e, principalmente, aquilo que acredito ser prudente e adequado nos relacionamentos interpessoais. E isso inclui responder as mensagens que recebo, ainda que eu não queira mais sair com o cara, ou ainda que eu queira sair com esse cara mais do que tudo. Responder porque simplesmente foi assim que me educaram. E isso também inclui falar com quem eu quiser, na hora em que bem entender e - por que não? - propor o próximo choppinho.

"E se ele parar de te responder? E se ele sumir do mapa?" - você pode se perguntar. Isso vai acontecer com ou sem joguinho, por um motivo muito simples: assim como nos interessamos por alguém, também podemos nos desinteressar, não querer mais ver ou falar com determinada pessoa. E isso, com certeza, não tem nada a ver com o número de i's que você usou no seu "oiiiii" ou com as 9 horas e 33 minutos que demorou para retornar uma mensagem. É algo maior do que isso. Ele, talvez, tenha achado outras mais interessantes do que você. Ou, provavelmente, só não está mais afim mesmo. E daí? Não deveríamos sofrer tanto com estas questões para as quais não temos as respostas.

Quando eu finalmente compreendi tudo isso e coloquei em prática, reencontrei a melhor versão de mim mesma. Com auto-confiança, pude novamente exercitar aquilo que todos temos e que nos torna tão únicos: a autenticidade. E foi irradiando luz própria que mergulhei sem medo ou grandes traumas na tão falada "vida de solteira", vivendo novas experiências e conhecendo novas pessoas. Umas vão, outras ficam; umas deixam marcas, outras não... e assim a vida caminha, sem pressa e sem essa obrigação, muitas vezes imposta a nós, de "arrumar um bom partido".

Sinceramente, acho que não existe isso de vida de comprometido ou vida de solteiro, afinal somos (ou deveríamos ser) sempre um só em qualquer fase da vida. E não importa em qual desses momentos você esteja; lembre sempre de algo tão simples e tão importante: antes de procurar conquistar quem quer que seja...

...CONQUISTE-SE.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Uma década

Engraçado te ver dormir aqui do meu lado. Depois de dez anos, é no mínimo surreal ter você tão perto. Você nem percebe, mas te dou umas cutucadas, só para ver se é de verdade. E é. Sorrio com a constatação.
Sem te acordar, pego a camisa que você jogou no chão. Tem o seu cheiro. Gosto de gente com aroma único, uma combinação de perfume com pele que só se encontra naquela pessoa, especificamente. Minha memória olfativa traz as melhores lembranças de alguém quando sinto seu cheiro.
Enquanto você dorme, divago sobre a loucura de nós dois: tudo rápido demais, intenso, avassalador. Como se dez anos tivessem acumulado um querer latente, uma vontade violenta de sentir o outro.
Era para ser um encontro inocente, um bate-papo informal sobre amenidades, salpicado, talvez, por indiretas bobas. Era para ser uma reunião de amigos, mas não foi. Para nossa surpresa, foi uma união de almas.
Não esperávamos por isso... Mas, no fundo, em algum lugar do inconsciente, vínhamos maturando esse desejo há uma década.
Perdemos, então, dez anos?
De forma alguma. Olhando para você, aqui e agora, compreendo que não há melhor configuração de energia, tempo e espaço: tinha que ser assim. Que assim seja, então, até quando tiver que ser.
Que seja intenso, que seja doce, que tenha cheiro de você.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Meu destinatário

Vez ou outra, algumas pessoas me perguntam para quem eu escrevo. Aliás, já recebi um lisonjeado agradecimento pela belíssima "dedicatória" que havia escrito:
- Que dedicatória? - minha expressão não poderia ter sido mais estupefata.
- Aquele texto que você publicou recentemente no seu blog. Percebi que foi pra mim. Me vi ali nas suas palavras. Obrigado, achei lindo.
- Mas o que te fez pensar que o texto se dirigia a você?
- Ah, muitas coisas...principalmente porque você termina o post com "Para um amor no Recife", do Paulinho da Viola. Ali, não tive dúvidas de que era pra mim.
- Bem... pode ser para você, então. Se isso te agrada...
- Mas não é?
- É o que você quiser que seja.
Fim do assunto e início de um ponto de interrogação gigante pairando sobre a cabeça do meu colega...
Para completar, recentemente, fui surpreendida pelo seguinte comentário:
- Li seu blog. Não acho isso legal não, é muita exposição da sua vida.
Ainda tentei argumentar que, não necessariamente, era a minha vida a ser retratada ali. Fui vencida pela preguiça de entrar em um debate, enquanto uma cerveja gelada aguardava à minha frente, na esperança de que eu calasse a boca e não cometesse o disparate de deixá-la esquentar.
Agora, sem distrações e sem cerveja, me ponho a perguntar: por que preciso escrever para alguém?
A escrita, pelo menos a minha, não tem necessariamente um destinatário. Acho, inclusive, que aí é que está a beleza da coisa. As palavras cairão como luva àqueles que estiverem aptos a recebê-las. É tudo uma questão de encaixe...
Outra coisa que eu não posso garantir é que seja eu a narradora de todos os textos. Embora escritos por mim, são contados ou vividos por diferentes Laras, nos mais variados estados de espírito e matéria, sob as mais diversas intempéries psicológicas.
E, por favor, não esqueçamos nunca da subjetividade, da metáfora, da poesia. Exatamente aquilo que dá múltiplo sentido à vida e nos permite ler o mundo além do que se vê. A gente tem mania de querer tudo concreto, né?
Pois fique sabendo que a realidade, essa que está aí, tão objetiva e clara na sua frente, nada mais é do que aquilo que você quer ver. Os meus olhos a enxergarão de modo diferente dos seus. E isso é lindo!

Porque, convenhamos: coisa mais sem graça seria viver num mundo literal...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Fim

Passada a tempestade, pude enfim enxergar um pingo de razão em meio aos meus pensamentos descompensados. Agora que meus pés já tocam o chão, as águas do mar estão tão nítidas quanto minha descoberta.
Finalmente, entendi que tem gente que entra na nossa vida para ir embora. Este é o papel dessas pessoas: bagunçar a casa, derrubar quaisquer paradigmas, desenterrar sentimentos até então desconhecidos. Depois, provam ao máximo a nossa capacidade de resiliência e amor-próprio até que, um dia, desaparecem, levando consigo um punhado de lágrimas e segredos nossos.
Eu poderia me desesperar com essa constatação. Coisa mais sem graça, mais cruel! Mas algo em mim dizia que gente assim é necessária. É assim que se cresce, que se aprende.
É assim que, no desespero do escuro, descobrimos que a luz sempre esteve conosco. Era só abrirmos os olhos e ouvirmos aquela vozinha que vem da alma, nos momentos mais sombrios, dizendo:

- Ainda há força em ti.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Passagem

Por favor, não diga isso. Não é nada do que você está pensando. Eu posso até ter mudado, mas a minha essência permanece inalterada. Eu não sou fria, nem má e, muito menos, indiferente.

Se você me olhar bem nos olhos, vai constatar o que, no fundo, já sabe: eu ainda estou aqui. E quer saber de uma coisa? Eu sempre estarei. Ainda que não sejamos mais um só. Ainda que que as interações se tornem raras. Você sempre terá a mim pelo simples motivo de levar consigo uma parte da minha vida. O pedaço mais lindo e feliz, ouso dizer.

“Mas por que, então, tudo isso está acontecendo?” Eu não sei. Qualquer tentativa de encontrar uma razão tangível seria em vão. Aliás, estou para encontrar algo mais intangível, irracional e intenso do que o amor. E, justamente porque não posso tocá-lo, nem vê-lo, eu não consigo explicar por que ele é assim, tão mutável. Assim, tão lindo. Assim, tão... cortante.

Receio informar que nada podemos fazer para banir a dor. Ela é inevitável. Mas, apesar de lancinante, traz consigo um animador paradoxo: quanto mais a aceitamos, mais rapidamente ela se esvai.

Portanto, por mais improvável que pareça, eu juro que tudo vai passar. Não vai ser fácil. O caminho é tortuoso e tomado por uma neblina densa, que não nos permite ver além. Entretanto, é necessário que realizemos a travessia, sempre em frente, até que nossas vistas, hoje embaçadas, possam finalmente enxergar com clareza o que há do outro lado.

E vai ser bom, eu te prometo. O amanhã nos reserva a paz e a felicidade que merecemos. Só precisamos respirar fundo, engolir o medo e atravessar este trecho pantanoso.

Vamos?

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sobre saudade

Gosto da saudade.

Vivia com saudades há uns três anos, desde quando, sob os olhares marejados dos meus pais, resolvi sair de casa. Eu tinha vinte e um anos. Para você, pode parecer tarde; para mim, foi bruscamente cedo. Eu não estava preparada... Mas quando estaria? Na dúvida, resolvi pular do penhasco.

Achei que a vida me daria pára-quedas. Não deu. Eu me espatifei no chão, caí feio mesmo, com direito a muitas costelas quebradas e um coração em estilhaços. Senti-me só. Sabe aquela solidão tão profunda, que chega a doer? Se não sabe, só posso te dizer uma coisa: ela existe. E é aterradora. Te faz chorar com fotos, músicas, cheiros e vozes queridas ao telefone; te faz negar qualquer possibilidade de ser feliz com o novo.

Eu não sabia que era tão apegada. Desconhecia a profundidade das minhas raízes. Entrei numa vibe nostálgica e irritante (principalmente para aqueles que conviviam comigo), no melhor estilo “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Nunca fui muito simpatizante deste poema. Sempre achei uma besteira descabida essa idealização da pátria, do passado, de tudo. E o que eu estava fazendo? Exatamente isto.

Achava minha cidade perfeita, minha antiga casa muito melhor do que a atual, cheguei ao cúmulo de andar na rua ouvindo conversa alheia, só para detectar um sotaque próximo do meu. Nada na vida nova me encantava: nem as paisagens, nem as pessoas. Muito menos as pessoas. Já que meu orgulho não me permitia voltar para casa, decidi seguir em frente, carregando o peso da minha amargura, assim como detentos e escravos, no passado, carregavam aquelas esferas metálicas presas por correntes aos tornozelos.

Eu realmente não era uma boa companhia naquela época: irritada, chorona, desleixada comigo mesma. Apesar de tudo, ao longo do caminho, algumas pessoas tiveram a bondade (ou seria a coragem?) de se aproximarem de mim. Chamaram-me para festas, barzinhos, restaurantes. Convidaram-me para um simples (e providencial) cafezinho no intervalo do trabalho. Uma vez, uma colega da empresa (hoje, grande amiga) olhou bem nos meus olhos, pegou minha mão e disse:
- Olha, eu vejo que você está sofrendo muito aqui. Não deve ser fácil ficar longe da sua família. Se você quiser um pouquinho de aconchego familiar, vai jantar lá em casa, meus pais vão te receber com o maior carinho!

Eu JURO para você que tem gente nesse nível de “bacaneza” no mundo! Fiquei TÃO grata por aquilo! Uma gratidão que eu não sentia há séculos...

E assim, sem que eu percebesse, a vida foi ficando mais leve. Comecei a me permitir ao novo. Abri o coração e deixei que nele entrassem novos amigos, lugares e experiências. Comecei, inclusive, a curtir os dias em que ficava sozinha. Descobri que esses dias eram valiosos para a alma e que, não necessariamente,  estar sozinha significava ser solitária.

Revisitei a saudade e conferi a ela uma carga positiva. Saudade, para mim, passou a ser gostinho de “quero mais”. Passou a ser a certeza de que foi bom e que valia repetir.

E foi assim que me reenergizei. Junto com as boas energias, vieram as boas-novas: a vida, mais uma vez, me convidou a mudar. Eu fui. Com a cara, a coragem e as histórias que havia colecionado até então.

Hoje, estou fisicamente ainda mais distante, mas me sinto mais próxima. Amo aqui e ali. Amo os de cá e os de lá. Cultivo uma saudade leve, dessas boas de acumular bastante, até explodir num esperado encontro. Fiz desse sentimento algo gostoso de sentir, algo que te faz ter gratidão por todos que a vida de teu.


Não é bom viver COM saudade. Coisa boa, mas boa mesmo, é viver DE saudade.