segunda-feira, 30 de abril de 2012

Um sonho

Sonhei com você essa noite. Sonho bom, daqueles que fazem a gente se beliscar quando acorda, de tão reais.
Eu, você e um pôr-do-sol de arrancar sorriso até dos mais sérios e frios. Logo reconheci onde estávamos: um banco de areia deserto, na beira de uma certa lagoa de água bem salgada, bastante familiar.
Você jogava pedrinhas, tentando fazer com que pulassem sobre a lâmina d'água tantas vezes fossem possíveis. Foi quando uma outra pedra, que com certeza não fora atirada por você, desviou sua atenção. Lá estava eu, estampando uma serenidade atípica, rindo do espanto em seu rosto.
- Não acredito que você veio. Faz tanto tempo...
- Hoje é 22 de setembro. E eu prometi que viria. Não importa quanto tempo tenha passado. - respondi.
- Você casou?
- Não.
- Eu também não. Tem filhos?
- Não. E você?
- Que eu saiba, não.
- Como sempre, cheio de gracinhas...
- Você viu como a água está cristalina? Resultado daquele programa de despoluição, lembra? Que foi lançado quando nós...nós ainda...
- Quando ainda estávamos juntos. Sim, eu lembro. Demorou, mas pelo menos a lagoa ficou linda. Aliás, muita coisa mudou por aqui. Muitos prédios, centros comerciais, carros...peguei um engarrafamento absurdo para chegar até aqui e...
- Eu não mudei. - Você me interrompeu, um pouco nervoso, deixando claro que não era o momento para conversarmos sobre trivialidades.
- Eu também não. Ainda sou a mesma menina que você conheceu. Venho te amando calada todos esses anos. Ainda faço a nossa velha brincadeira do anel da latinha. Todas as vezes que passo pelo seu bairro, paro o carro em frente ao seu prédio, na esperança de você sair, ainda que provavelmente eu vá me esconder embaixo do banco no primeiro sinal de sua presença. Ainda tenho horror a baratas e, sempre que vejo uma (e após correr algumas centenas de metros, fazendo escândalo), começo a rir, lembrando que você sempre inventava uma desculpa para não matá-las, com vergonha de assumir para mim que também tinha pânico. Eu ainda amo comédias românticas e odeio aqueles seus filmes de II Guerra Mundial. Continuo a pessoa mais indecisa do mundo e, quando estou em dúvida entre aquele vestido ou essa blusinha(ou aquele short, ou que tal uma saia, ou acho que só uma basiquinha mesmo), sempre me pego contando à vendedora: "Menina, eu tinha um namorado com olho clínico pra roupa! Ele entrava na loja, separava tudo que eu tinha que provar... e não é que as escolhas dele sempre ficavam perfeitas?". Ainda faço nossas sessões de cinema em casa, com direito a espumante e todos aqueles petisquinhos que eu preparava pra você (gosto de chamá-las de "nossas", mesmo que hoje sejam "As sessões solitárias de cinema em casa da Lara"). Eu ainda sou a mesma, os mesmos hábitos, o mesmo...
- Colar. O mesmo colar que eu te dei de aniversário.
Foi quando eu percebi que você estava emocionado ao me reconhecer. Seus olhos me diziam que já não éramos mais dois estranhos se reencontrando. E eu compreendi que, de alguma forma, sempre estivemos lá, buscando um ao outro.
Você então pegou a minha mão e fomos caminhando, até que nossas sombras na areia se fundiram e nos fizeram entender que voltáramos a ser um só.


Acordei chorando. Um choro de alívio, de alegria. Eu não sei se acredito em mensagens transmitidas por sonhos. Só sei que segurei firme o meu colar e voltei a dormir com uma serenidade que nunca antes havia sentido, e uma certeza de que o amor não foi em vão.
Valia a pena esperar por um 22 de setembro, uma certa lagoa e uma feliz intersecção de tempo e espaço.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Rehab

Não, meu bem. Não adianta procurar. Você não vai achar o amor por aqui. Eu o escondi tal qual uma mãe desesperada esconde o dinheiro e qualquer substância química do alcance de seu filho dependente.
O amor, para nós, foi tóxico. Começou nos deixando bobos, entorpecidamente alegres.
Aos poucos, começamos a utilizá-lo como moeda de troca. “Sim, eu te decepcionei, mas toma aqui um pouquinho mais de amor e ficamos quites.” E eu aceitava de bom grado, afinal, que mal faria só mais uma dose?
E assim fomos. Quantidades cavalares de amor, sempre temperadas com promessas superestimadas e pedidos de desculpas produzidos em escala, diretamente proporcionais ao tamanho das feridas que ficavam em mim.
Foi quando percebi que estávamos completamente perdidos na desgraça de um amor paliativo, um amor “tapa buraco”.
E é por isso, meu bem, que eu o escondi bem no fundo do meu orgulho e da minha vontade de ser genuinamente feliz.
Proponho a nós dois um período de reabilitação. Eu já dei o primeiro passo. Confesso que não é fácil, o sofrimento da abstinência é enlouquecedor, mas eu te garanto: tudo valerá a pena naquele dia em que, em meio à escuridão, veremos um primeiro raiozinho de Sol e sentiremos corpo e alma preenchidos não mais pelo amor-veneno, mas por uma forma pura e vital desse sentimento tão confuso: o amor-próprio.
Boa sorte.