sábado, 25 de março de 2017

Na cozinha

Se perguntarmos a uma criança de onde vem o leite, não será espantoso ela responder que vem da caixinha. Ou do supermercado. Também não ficaremos surpresos se, para ela, 'cozinhar' for o ato de colocar um congelado no microondas e apertar alguns botões. O fato é que terceirizamos nossa alimentação. Em nome da pressa, comodidade e praticidade, nos distanciamos dos alimentos e de sua origem. Passamos horas assistindo a programas de culinária, mas não dedicamos nem 40 minutos ao preparo de nossa própria comida. O engraçado é que a capacidade de cozinhar foi um dos fatores que nos diferenciou das outras espécies no processo evolutivo. Dentre tantas outras coisas, cozinhar é remeter à nossa origem. 

Eternizamos a cultura de um povo através de sua língua, suas manifestações artísticas e - claro - sua comida. "Eu cozinho assim porque minha mãe me ensinou. E esse prato era feito pela minha avó, que aprendeu com o pai dela." Desta forma, nos reunimos ao redor da mesa nas datas comemorativas, nas grandes celebrações ou em qualquer outro momento. Usamos temperos típicos, perpetuamos receitas centenárias e, por meio da comida, damos característica ao nosso espaço: nossa cidade, estado, país. Cozinhar, portanto, é manifestar nossa identidade.

Quando preparamos nosso próprio alimento, nos damos a chance de conhecer o que comemos. Nos opomos aos interesses de uma indústria que insiste em empurrar, literalmente goela abaixo, a fórmula do "rápido-barato-saboroso". Esqueceram apenas do fator essencial: o nutritivo. Ler a lista de ingredientes de um pacote no supermercado é, praticamente, ler em outro idioma. Um sem fim de compostos químicos, flavorizantes, emulsificantes, corantes, adoçantes...mortificantes.  Não vemos isso na natureza e não saberíamos reproduzir em casa. Por isso, ao cozinharmos, fazemos uma escolha. Escolhemos nos aproximar dos alimentos em sua forma mais básica, em seu aspecto original. Nos afastamos (um pouquinho que seja) dos refinados, processados, hidrogenados, transformados em sei-lá-o-quê. Nadamos contra a maré de um oceano de pacotinhos e soluções prontas para consumo. Cozinhar é, portanto, resistir.

Combinar ingredientes é estimular a criatividade e o aprendizado. Na cozinha, somos todos alquimistas. Vivenciamos processos químicos e físicos que fazem os alimentos se transformarem e resultarem em possibilidades infinitas de aspecto, texturas, cores e sabores. Vemos uma simples mistura de água, sal e farinha ganhar vida e virar pão, através de um elemento básico: o ar. Fazemos um mesmo leite gerar vários tipos de queijo, graças a uma imensa variedade de microorganismos que coexistem e criam complexos biomas no alimento.  Cozinhar é, portanto, Ciência.

É importante lembrar que comemos natureza e que também somos natureza. Estamos organicamente ligados, nós e o mundo. Preparar nosso alimento deve nos estimular a comprar e escolher de forma mais consciente, eliminando o máximo de embalagens poluentes, produzindo cada vez menos lixo e buscando alternativas ao descarte. Devemos ter a consciência da origem do alimento, de seu cultivo e do impacto ambiental por ele causado. Os ingredientes podem ser aproveitados integralmente, evitando desperdícios e colaborando para a nutrição de muitos. Cascas, caules, folhas, sementes, raízes... tudo é comida. Cozinhar é, portanto,  preservar a Vida.

Que dediquemos mais tempo e cuidado ao preparo de nosso alimento. Que tomemos consciência do poder de transformação que isso tem. Para mudar o mundo, podemos partir de qualquer lugar.
Inclusive, da cozinha.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ano Novo

Os últimos dias de 2016 se arrastaram mais do que eu gostaria. Dentro de mim, uma inquietude sem fim, sensação esquisita de que algo me sufocava. Entrei no novo ano sem fazer meus tradicionais votos e resoluções. Bem que tentei, mas não consegui pensar em nada.

Tem gente que compara o ano a um livro. Ano novo: mais 365 páginas inteiras a serem escritas. Por quem? Teoricamente, por você. Por mim. Cada um com seu próprio livrinho. Pois é. No meu caso, a página simplesmente não virava, como aqueles cadernos que, por um erro de produção, vem com as folhas grudadas. Frustrada, decidi então reler o livro de 2016. Vai que me dava algum insight...

E deu.  Folheando, fiquei perplexa em não reconhecer aquela letra. Não era a minha! E foi aí que veio o choque. E a clareza. E a dor. Não fui eu que escrevi a minha história de 2016. Simplesmente perdi o controle e passei aos outros a caneta da Vida. Os autores? Estavam todos lá, suas assinaturas na contracapa atestando minha incompetência: o excesso de trabalho, a procrastinação, os inúmeros compromissos, a opinião alheia (que aceitei tão passivamente), os conselhos não solicitados (aos quais dei tanto valor), as pessoas de energia pesada que acabaram por sugar a minha (que ficou pesada também...).

Faltou Lara em 2016. “Para evitar a fadiga”, abaixei a cabeça mais do que deveria. Fui exageradamente permissiva. Deixei que o caos diário invadisse a minha paz. Evitei discussões necessárias e, entre o sim e o não, fiquei com o “pode ser”.  Afinal, eu precisava ser colaborativa. Namorada perfeita. Funcionária do mês. Musa fitness. Filha exemplar. Amiga solícita. Na tentativa de ser tudo, eu só não fui eu.

Desabei em lágrimas. Abriram-se as comportas e o rio de um ano inteiro finalmente correu livre e veloz, num fluxo de lavar a alma. “Eu falhei”, disse a mim mesma. “Eu falhei, eu falhei, eu falhei”...caramba. Que difícil admitir isso. Nas redes sociais, ninguém fala dos erros, dos percalços, das quedas. Só falamos dos êxitos, estampamos sorrisos, viagens e posições de ioga. Nada contra, mas a gente só esquece que, fora da esfera virtual, a vida continua. E ela não é fácil.

Eis que, em meio aos soluços, veio um alívio sem fim, uma sensação plena de leveza. Quando menos percebi, minha boca entoava as palavrinhas mágicas que meu coração precisava ouvir: “Eu me perdoo. Eu me perdoo, eu me perdoo, eu me perdoo.” E fez-se a luz. Meu livro de 2017 materializou-se e eu segurei firme a caneta, escrevendo ininterruptamente, como em fluxos psicográficos:

1) Perdoe-se. O perdão a si é um ato de amor próprio.
2) Aceite os tropeços e absorva seus ensinamentos. A virtude do erro é o aprendizado.
3) Conheça e respeite seus limites. A questão não é fazer o impossível; é fazer o seu melhor.
4) Não tenha medo de dizer NÃO. Recusar-se a abraçar mais demandas do que você pode suportar não é sinal de incompetência; é demonstração de sensatez e maturidade.
5) Confie mais em você mesma: conselhos e opiniões eventualmente são bem-vindos, mas o gestor da sua vida é VOCÊ.
6) DESCANSE.  Resultados são frutos da combinação Esforço + Repouso. Isso vale para corpo, mente e espírito.

Pronto. Traduzido em palavras o que meu Eu interior há tempos vinha gritando. Não me sinto mais perdida. Segurei firme no volante de 2017 e vou dirigir conforme meu próprio mapa. Eu, autora e protagonista do meu próprio livro da Vida. O resto é coadjuvante ou participação especial.

Who run my world? Me.