quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Uma década

Engraçado te ver dormir aqui do meu lado. Depois de dez anos, é no mínimo surreal ter você tão perto. Você nem percebe, mas te dou umas cutucadas, só para ver se é de verdade. E é. Sorrio com a constatação.
Sem te acordar, pego a camisa que você jogou no chão. Tem o seu cheiro. Gosto de gente com aroma único, uma combinação de perfume com pele que só se encontra naquela pessoa, especificamente. Minha memória olfativa traz as melhores lembranças de alguém quando sinto seu cheiro.
Enquanto você dorme, divago sobre a loucura de nós dois: tudo rápido demais, intenso, avassalador. Como se dez anos tivessem acumulado um querer latente, uma vontade violenta de sentir o outro.
Era para ser um encontro inocente, um bate-papo informal sobre amenidades, salpicado, talvez, por indiretas bobas. Era para ser uma reunião de amigos, mas não foi. Para nossa surpresa, foi uma união de almas.
Não esperávamos por isso... Mas, no fundo, em algum lugar do inconsciente, vínhamos maturando esse desejo há uma década.
Perdemos, então, dez anos?
De forma alguma. Olhando para você, aqui e agora, compreendo que não há melhor configuração de energia, tempo e espaço: tinha que ser assim. Que assim seja, então, até quando tiver que ser.
Que seja intenso, que seja doce, que tenha cheiro de você.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Meu destinatário

Vez ou outra, algumas pessoas me perguntam para quem eu escrevo. Aliás, já recebi um lisonjeado agradecimento pela belíssima "dedicatória" que havia escrito:
- Que dedicatória? - minha expressão não poderia ter sido mais estupefata.
- Aquele texto que você publicou recentemente no seu blog. Percebi que foi pra mim. Me vi ali nas suas palavras. Obrigado, achei lindo.
- Mas o que te fez pensar que o texto se dirigia a você?
- Ah, muitas coisas...principalmente porque você termina o post com "Para um amor no Recife", do Paulinho da Viola. Ali, não tive dúvidas de que era pra mim.
- Bem... pode ser para você, então. Se isso te agrada...
- Mas não é?
- É o que você quiser que seja.
Fim do assunto e início de um ponto de interrogação gigante pairando sobre a cabeça do meu colega...
Para completar, recentemente, fui surpreendida pelo seguinte comentário:
- Li seu blog. Não acho isso legal não, é muita exposição da sua vida.
Ainda tentei argumentar que, não necessariamente, era a minha vida a ser retratada ali. Fui vencida pela preguiça de entrar em um debate, enquanto uma cerveja gelada aguardava à minha frente, na esperança de que eu calasse a boca e não cometesse o disparate de deixá-la esquentar.
Agora, sem distrações e sem cerveja, me ponho a perguntar: por que preciso escrever para alguém?
A escrita, pelo menos a minha, não tem necessariamente um destinatário. Acho, inclusive, que aí é que está a beleza da coisa. As palavras cairão como luva àqueles que estiverem aptos a recebê-las. É tudo uma questão de encaixe...
Outra coisa que eu não posso garantir é que seja eu a narradora de todos os textos. Embora escritos por mim, são contados ou vividos por diferentes Laras, nos mais variados estados de espírito e matéria, sob as mais diversas intempéries psicológicas.
E, por favor, não esqueçamos nunca da subjetividade, da metáfora, da poesia. Exatamente aquilo que dá múltiplo sentido à vida e nos permite ler o mundo além do que se vê. A gente tem mania de querer tudo concreto, né?
Pois fique sabendo que a realidade, essa que está aí, tão objetiva e clara na sua frente, nada mais é do que aquilo que você quer ver. Os meus olhos a enxergarão de modo diferente dos seus. E isso é lindo!

Porque, convenhamos: coisa mais sem graça seria viver num mundo literal...