Engraçado te ver dormir aqui do meu
lado. Depois de dez anos, é no mínimo surreal ter você tão perto. Você nem
percebe, mas te dou umas cutucadas, só para ver se é de verdade. E é. Sorrio
com a constatação.
Sem te acordar, pego a camisa que
você jogou no chão. Tem o seu cheiro. Gosto de gente com aroma único, uma combinação
de perfume com pele que só se encontra naquela pessoa, especificamente. Minha
memória olfativa traz as melhores lembranças de alguém quando sinto seu cheiro.
Enquanto você dorme, divago sobre a
loucura de nós dois: tudo rápido demais, intenso, avassalador. Como se dez anos
tivessem acumulado um querer latente, uma vontade violenta de sentir o outro.
Era para ser um encontro inocente,
um bate-papo informal sobre amenidades, salpicado, talvez, por indiretas bobas.
Era para ser uma reunião de amigos, mas não foi. Para nossa surpresa, foi uma
união de almas.
Não esperávamos por isso... Mas, no
fundo, em algum lugar do inconsciente, vínhamos maturando esse desejo há uma
década.
Perdemos, então, dez anos?
De forma alguma. Olhando para você,
aqui e agora, compreendo que não há melhor configuração de energia, tempo e
espaço: tinha que ser assim. Que assim seja, então, até quando tiver que ser.
Que seja intenso, que seja doce, que tenha
cheiro de você.