segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Namorar no Carnaval

Perguntaram-me o que eu pensava de passar o Carnaval namorando. Não compreendi muito bem e respondi com outra interrogação:
- Como assim? O que uma coisa tem a ver com a outra?
- Ah, perrengue, né... vai pra bloco de rua, muita gente, muito álcool, começam a rolar uns ciúmes, uns desentendimentos. Carnaval namorando só dá dor de cabeça. Melhor ficar longe, de preferência em uma praia ou na serra, numa pousadinha bacana.
Bem, o combo “Viagem de casal” muito me atrai. Não tem coisa mais gostosa do que conforto a dois. Mas - no meu caso - não no Carnaval.
Eu passo o ano inteiro esperando por essa festa: vou às prévias, seleciono meus blocos preferidos, escuto frevos e marchinhas no carro, idealizo as fantasias e monto meus personagens. Para mim, Carnaval é a chance de, por quatro dias, transformar minhas pirações em realidade, sem que ninguém me impeça, sem julgamentos.
Sendo assim, a ideia de compartilhar esse sonho com alguém, que está comigo simplesmente por me amar, me parece incrível, completamente oposta a qualquer conceito de “perrengue”.
Viajaremos juntos para Olinda. No avião, dividiremos o fone de ouvido para escutarmos pela milésima vez a playlist carnavalesca que montei para que você se familiarizasse e entrasse no clima. Exaustos de um dia inteiro de muito trabalho, desfrutaremos de nossas últimas horas de sono tranquilo. De amanhã em diante, meu bem, torturaremos nossas colunas no colchão inflável, dividiremos o banheiro com desconhecidos, tentaremos ignorar o barulho lá fora e dormiremos com a brisa insuficiente do ventilador.
Eu vou te acordar com um copo d’água e um Engov. Você me dará aquele “bom dia!” entre sorrisos e, juntos, decidiremos sincronizar as fantasias: vamos de índios. Nossa tribo de dois tomará um café da manhã reforçado: macaxeira, ovo, tapioca, presunto, queijo e um cafezinho sem açúcar para terminar de acordar.
Você pintará meu rosto, com cuidado, para não borrar. Eu vou prender o cocar em sua cabeça e, devidamente caracterizados, brindaremos com a primeira cerveja da temporada, aquela bem gelada, antes das oito da manhã...essas coisas que só o Carnaval faz por você.
Subiremos e desceremos ladeiras, encontraremos amigos e conheceremos gente nova.
No calor de matar, você renova o protetor solar do meu rosto e pede uma parada técnica para se hidratar. Tudo bem. Somos uma dupla, somos parceiros. Andamos no nosso ritmo.
Na multidão, pisam no seu pé. Foi o Homem-Aranha aí do lado, que gentilmente pede desculpas. Seguimos o caminho e pisam no meu pé. Foi você! Caímos na gargalhada, que é pra dor passar mais rápido, e continuamos na folia.
Agora, eu estou de sereia e você, de Chapolim! Que encontro inusitado! Uma mocinha charmosa vem falar contigo, mas você diz que está acompanhado. Um rapaz desavisado pega na minha mão e eu digo que já tenho um par, muito obrigada.
Ciúmes? De quê? Se eu sei que sou tão sua e você sabe que é tão meu! E, nessa ciranda carnavalesca, damos um beijo cinematográfico no meio da massa colorida de gente. As provas do nosso enlace ficam todas em forma de purpurina na sua barba.
Pode ser que você beba demais. Pode ser que eu exagere, afinal, você sabe como sou fraquinha para bebidas alcoólicas. Não tem problema: cuidaremos um do outro, com paciência e zelo, porque Carnaval tem dessas coisas mesmo...e até que nós dois, um tanto quanto trôpegos, rendemos boas risadas.
E, assim, seguirão nossos dias, até que chegue a quarta-feira de cinzas. Juntamos nossos pertences e o que sobrou de nossa energia. Cansados, mortos, completamente exauridos.

Mas felizes. Radiantes. Certos de que irmos juntos não atrapalhou em nada a alegria da festa. Certos de que namorar no Carnaval é colori-lo com ainda mais amor :)