Os últimos dias de 2016 se arrastaram mais do que eu
gostaria. Dentro de mim, uma inquietude sem fim, sensação esquisita de que algo
me sufocava. Entrei no novo ano sem fazer meus tradicionais votos e resoluções.
Bem que tentei, mas não consegui pensar em nada.
Tem gente que compara o ano a um livro. Ano novo: mais 365
páginas inteiras a serem escritas. Por quem? Teoricamente, por você. Por mim.
Cada um com seu próprio livrinho. Pois é. No meu caso, a página simplesmente
não virava, como aqueles cadernos que, por um erro de produção, vem com as
folhas grudadas. Frustrada, decidi então reler o livro de 2016. Vai que me dava
algum insight...
E deu. Folheando,
fiquei perplexa em não reconhecer aquela letra. Não era a minha! E foi aí que
veio o choque. E a clareza. E a dor. Não fui eu que escrevi a minha história de 2016. Simplesmente perdi o
controle e passei aos outros a caneta da Vida. Os autores? Estavam todos lá,
suas assinaturas na contracapa atestando minha incompetência: o excesso de
trabalho, a procrastinação, os inúmeros compromissos, a opinião alheia (que
aceitei tão passivamente), os conselhos não solicitados (aos quais dei tanto
valor), as pessoas de energia pesada que acabaram por sugar a minha (que ficou
pesada também...).
Faltou Lara em 2016. “Para evitar a fadiga”, abaixei a
cabeça mais do que deveria. Fui exageradamente permissiva. Deixei que o caos
diário invadisse a minha paz. Evitei discussões necessárias e, entre o sim e o
não, fiquei com o “pode ser”. Afinal, eu
precisava ser colaborativa. Namorada perfeita. Funcionária do mês. Musa
fitness. Filha exemplar. Amiga solícita. Na tentativa de ser tudo, eu só não
fui eu.
Desabei em lágrimas. Abriram-se as comportas e o rio de um
ano inteiro finalmente correu livre e veloz, num fluxo de lavar a alma. “Eu
falhei”, disse a mim mesma. “Eu falhei, eu falhei, eu falhei”...caramba. Que
difícil admitir isso. Nas redes sociais, ninguém fala dos erros, dos percalços,
das quedas. Só falamos dos êxitos, estampamos sorrisos, viagens e posições de ioga.
Nada contra, mas a gente só esquece que, fora da esfera virtual, a vida
continua. E ela não é fácil.
Eis que, em meio aos soluços, veio um alívio sem fim, uma
sensação plena de leveza. Quando menos percebi, minha boca entoava as
palavrinhas mágicas que meu coração precisava ouvir: “Eu me perdoo. Eu me
perdoo, eu me perdoo, eu me perdoo.” E fez-se a luz. Meu livro de 2017
materializou-se e eu segurei firme a caneta, escrevendo ininterruptamente, como
em fluxos psicográficos:
1) Perdoe-se. O perdão a si é um ato de amor
próprio.
2) Aceite os tropeços e absorva seus ensinamentos.
A virtude do erro é o aprendizado.
3) Conheça e respeite seus limites. A questão não é
fazer o impossível; é fazer o seu melhor.
4) Não tenha medo de dizer NÃO. Recusar-se a
abraçar mais demandas do que você pode suportar não é sinal de incompetência; é
demonstração de sensatez e maturidade.
5) Confie mais em você mesma: conselhos e opiniões
eventualmente são bem-vindos, mas o gestor da sua vida é VOCÊ.
6) DESCANSE.
Resultados são frutos da combinação Esforço + Repouso. Isso vale para
corpo, mente e espírito.
Pronto. Traduzido em palavras o que meu Eu interior há
tempos vinha gritando. Não me sinto mais perdida. Segurei firme no volante de
2017 e vou dirigir conforme meu próprio mapa. Eu, autora e protagonista do meu
próprio livro da Vida. O resto é coadjuvante ou participação especial.
Who
run my world? Me.