segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sobre saudade

Gosto da saudade.

Vivia com saudades há uns três anos, desde quando, sob os olhares marejados dos meus pais, resolvi sair de casa. Eu tinha vinte e um anos. Para você, pode parecer tarde; para mim, foi bruscamente cedo. Eu não estava preparada... Mas quando estaria? Na dúvida, resolvi pular do penhasco.

Achei que a vida me daria pára-quedas. Não deu. Eu me espatifei no chão, caí feio mesmo, com direito a muitas costelas quebradas e um coração em estilhaços. Senti-me só. Sabe aquela solidão tão profunda, que chega a doer? Se não sabe, só posso te dizer uma coisa: ela existe. E é aterradora. Te faz chorar com fotos, músicas, cheiros e vozes queridas ao telefone; te faz negar qualquer possibilidade de ser feliz com o novo.

Eu não sabia que era tão apegada. Desconhecia a profundidade das minhas raízes. Entrei numa vibe nostálgica e irritante (principalmente para aqueles que conviviam comigo), no melhor estilo “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Nunca fui muito simpatizante deste poema. Sempre achei uma besteira descabida essa idealização da pátria, do passado, de tudo. E o que eu estava fazendo? Exatamente isto.

Achava minha cidade perfeita, minha antiga casa muito melhor do que a atual, cheguei ao cúmulo de andar na rua ouvindo conversa alheia, só para detectar um sotaque próximo do meu. Nada na vida nova me encantava: nem as paisagens, nem as pessoas. Muito menos as pessoas. Já que meu orgulho não me permitia voltar para casa, decidi seguir em frente, carregando o peso da minha amargura, assim como detentos e escravos, no passado, carregavam aquelas esferas metálicas presas por correntes aos tornozelos.

Eu realmente não era uma boa companhia naquela época: irritada, chorona, desleixada comigo mesma. Apesar de tudo, ao longo do caminho, algumas pessoas tiveram a bondade (ou seria a coragem?) de se aproximarem de mim. Chamaram-me para festas, barzinhos, restaurantes. Convidaram-me para um simples (e providencial) cafezinho no intervalo do trabalho. Uma vez, uma colega da empresa (hoje, grande amiga) olhou bem nos meus olhos, pegou minha mão e disse:
- Olha, eu vejo que você está sofrendo muito aqui. Não deve ser fácil ficar longe da sua família. Se você quiser um pouquinho de aconchego familiar, vai jantar lá em casa, meus pais vão te receber com o maior carinho!

Eu JURO para você que tem gente nesse nível de “bacaneza” no mundo! Fiquei TÃO grata por aquilo! Uma gratidão que eu não sentia há séculos...

E assim, sem que eu percebesse, a vida foi ficando mais leve. Comecei a me permitir ao novo. Abri o coração e deixei que nele entrassem novos amigos, lugares e experiências. Comecei, inclusive, a curtir os dias em que ficava sozinha. Descobri que esses dias eram valiosos para a alma e que, não necessariamente,  estar sozinha significava ser solitária.

Revisitei a saudade e conferi a ela uma carga positiva. Saudade, para mim, passou a ser gostinho de “quero mais”. Passou a ser a certeza de que foi bom e que valia repetir.

E foi assim que me reenergizei. Junto com as boas energias, vieram as boas-novas: a vida, mais uma vez, me convidou a mudar. Eu fui. Com a cara, a coragem e as histórias que havia colecionado até então.

Hoje, estou fisicamente ainda mais distante, mas me sinto mais próxima. Amo aqui e ali. Amo os de cá e os de lá. Cultivo uma saudade leve, dessas boas de acumular bastante, até explodir num esperado encontro. Fiz desse sentimento algo gostoso de sentir, algo que te faz ter gratidão por todos que a vida de teu.


Não é bom viver COM saudade. Coisa boa, mas boa mesmo, é viver DE saudade.