quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O SMS

É cada uma que me acontece... Dia desses, vivi uma situação, no mínimo, tragicômica, dessas que nos deixam incrédulos, pensando por longos momentos: "Oi??? Eu estou MESMO passando por isso???".

Dessa história, podem derivar seríssimas reflexões, tipo "Como o TER se tornou tão mais relevante que o SER na sociedade contemporânea, a ponto de querermos possuir não só objetos e outros bens a qualquer custo, mas também possuir pessoas, de forma que possamos atestar poder e controle" ou "Como o individualismo vem criando seres humanos extremamente inseguros, o que os torna excessivamente desconfiados de tudo e todos, destruindo as relações interpessoais".

Ou, simplesmente, podemos concluir que ultrapassamos o limite do Ridículo e que 2012 é, de fato, o fim do mundo.

Eu estava combinando com o meu personal trainer (chique!) que a próxima aula seria às 5h30, e não às 20h00, como de costume. Como tenho problemas sérios para acordar cedo, duvidei de minha capacidade de levantar apenas com o barulhinho do despertador. Mandei, então, a seguinte mensagem para ele: "Me acorda quando vc acordar? Bjo!".
No dia seguinte, por alguma intervenção divina, despertei sem hesitar, sem ao menos colocar no modo "soneca" sete vezes, como geralmente faço. Achei estranho não ter recebido nenhuma ligação, mas inferi que ocorreu algum erro no envio do SMS.
Passados uns três dias, o Adalberto, um amigo, me liga:
- Oi, Lara, tudo bem? Chegou uma mensagem sua no meu celular, pedindo para te acordar! Era pra mim, mesmo?
- Cara, era pro meu personal! Por isso que ele não me ligou, hahahaha!
- Ah, ok, sem problemas! Eu já imaginava que era engano, mas resolvi confirmar só porque minha namorada viu e achou esquisito. Ficou com uma pulguinha atrás da orelha, sabe como é, né...
- Desculpa aí, tá? Beijo, tchau!
- Tchau!
Até aqui, nada de mais, certo? Apenas um ciuminho bobo presente em 11 de cada 10 namoradas no mundo. 
Entretanto, o inimaginável aconteceu.

Estava eu no escritório, umas 20h30, EXAUSTA, quando toca o celular: Adalberto chamando.
- Oi, Adalberto, tudo bem?
- Oi, Lara! Espera um minutinho.
Barulho de botões sendo apertados no telefone dele. A ligação fica distante. Ouço voz feminina ao fundo e a voz do Adalberto agora está com eco. Fui colocada em VIVA-VOZ. E NÃO FUI COMUNICADA SOBRE ISSO.
- Pronto, Lara, agora podemos falar. - Ou ele acha que sou imbecil o suficiente para não perceber, ou realmente considera NORMAL EXPOR AS PESSOAS SEM AVISÁ-LAS. - Então, aquela mensagem que você me mandou na quinta-feira à noite, às vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos, era para mim?
Foi quando entendi tudo. A namorada do Adalberto estava assistindo à nossa conversa, provavelmente com uma peixeira apontada para o membro do meu amigo, pronta para "capá-lo" (bem no estilo "Gabriela", novela das 23h00) caso minha resposta não fosse negativa. Para ela, não bastava a palavra dele. Ela precisava comprovar. "Meu Deus, que tipo de mulher manda o companheiro fazer uma coisa dessas??? E que tipo de homem aceita e se submete a uma situação tão constrangedora???", pensei.

- Lara, você ouviu a minha pergunta?
Ok, acho que estou no Tribunal da Inquisição, prestes a ser queimada na fogueira.
- Ahn? Ah, sim, ouvi. Era engano.
- Ahhhhh, então aquela mensagem era para outra pessoa?
Porra, ainda não entendeu? Quer que eu desenhe?
- Sim, era para meu personal.
- Ahhhhh, táááá. Que ótimo, então! É que minha namorada, a Sheila, não estava acreditando nisso e me mandou ligar para você. Mas agora está tudo resolvido!
Oi? Tudo resolvido? Eu acabo de ter minha privacidade invadida, de ser submetida a uma "teleconferência dos horrores" sem o meu consentimento e ele diz que está tudo bem???
- Ok, Adalberto. Desculpe o transtorno. Tchau.

Durante os dez minutos seguintes, permaneci inerte na cadeira. Passada. Impressionada. CHO-CA-DA. Um misto de raiva e indignação permeava meus pensamentos. "Como alguém pode ser tão obsessivo, desequilibrado e doente a ponto de obrigar o namorado a invadir o espaço dos outros por um motivo tão ínfimo? E como alguém consegue aceitar isso? Ser conivente e frouxo o bastante para não se posicionar contra este comportamento insensato e simplesmente obedecer às ordens absurdas que lhe foram impostas? SENHOR, A QUE PONTO CHEGAMOS???"

Passado o susto, fiquei bastante insatisfeita com as respostas que dei ao telefone. Tão simples e verdadeiras! Nada alinhadas à insanidade do episódio! Desejei do fundo do meu coração voltar no tempo e receber novamente a ligação do meu muy amado amigo. Dessa vez, seria do meu jeito. Porque não basta ser ridículo, tem que ser teatralmente ridículo, quase um melodrama. Coisa linda de se ver.

No meu mundo perfeito, o casal está num barco, no mar de Boa Viagem. Adalberto, após levar setecentas chibatadas ajoelhado no milho, é obrigado a caminhar até a ponta da prancha e me ligar. Sheila, com luzes vermelhas no lugar dos olhos e com labaredas saindo pelas narinas, ordenaria:
- Em VIVA-VOZ, seu inútil!
E, finalmente, A Pergunta:
- Então, aquela mensagem que você me mandou na quinta-feira à noite, às vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos, era para mim?
- É claro que sim.
Ouço Sheiloca ao fundo: - O QUÊÊÊÊÊ???
- N-n-não era pa-para seu pe-pe-pe-personal? - Pobre Adalberto...
- Claro que não, Dadal! Para quem mais seria, seu lindo? Eu só queria acordar com sua voz doce me desejando bom dia, como fazemos todas as manhãs desde que começamos juntos, há 5 anos!
Som de chicotadas ao fundo. A voz de Adalberto agora é quase inaudível:
- Lara, acho que há um equívoco...
- Ah, Dadal! Já chega de esconder o nosso amor! Inclusive, eu estou grávida! Você será pai de gêmeos! Vamos executar nosso plano de fugir para as Ilhas Maurício e viver da pesca e do artesanato! Eu, você e nossos pimpolhos seremos muuuuuito felizes, meu docinho!
Splash. Ligação cai.
Sheila empurra Adalberto para fora da embarcação e ele é imediatamente devorado pelos famintos tubarões do mar de Boa Viagem. Após o crime, Sheiloca entra em perpétuo estado de choque, perde completamente a sanidade (existia alguma?) e leva a vida a vagar pelas ruas de Recife, tornando-se um desses mendigos lendários, tal qual O Velho do Saco e A Dama de Branco.
Dizem que ela anda com um celular antigo na mão, abordando os transeuntes com indagações sem sentido:"Pra quem era a mensagem? Será que foi engano? Cadê o personaaaallll???"

Finalmente, desperto de meu devaneio e vou para casa aliviada e, quem diria, satisfeita.

Caros leitores, deixo claro que esta história não aconteceu comigo. Na verdade, foi com uma amiga minha. Ou melhor: com uma amiga de uma amiga minha. Pensando bem, ela nem aconteceu. Foi tudo invenção minha. Não passou de um sonho que, de tão real, acabou me confundindo e, por um momento, pensei mesmo que fosse verdade! Cheguei até a checar meu celular para ver se realmente a mensagem constava em minha caixa de saída e...



...deixa pra lá.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre os amores impossíveis

Ah, o nosso amor de paradoxo! Tão confinado e tão escancarado ao mesmo tempo! Sempre sob suspeita dos mais atentos (e maldosos, muito maldosos) olhares.
Confesso que gosto de alimentar as fantasias alheias, de dar a matéria-prima necessária para que criem suas histórias, para que percam todo o tempo que têm (e o que não têm) divagando sobre a possibilidade de nós dois.
Eu mesma desfruto desses momentos de imaginação fértil e transformo em imagem nítida a minha idéia platônica de você. Interpreto como reciprocidade cada sinal teu: os olhares, os sorrisos, os "olás" (que eu teimo em acreditar que, quando dirigidos a mim, são ligeiramente mais doces e carregam, nas entrelinhas, zilhões de outras palavras além de um simples "oi").
Enquanto isso, vivo o nosso mundo, embalado por aquele velho samba...lembra? Aquele que diz que você voltará depressa, tão logo acabe a noite.
Estou esperando...



segunda-feira, 30 de abril de 2012

Um sonho

Sonhei com você essa noite. Sonho bom, daqueles que fazem a gente se beliscar quando acorda, de tão reais.
Eu, você e um pôr-do-sol de arrancar sorriso até dos mais sérios e frios. Logo reconheci onde estávamos: um banco de areia deserto, na beira de uma certa lagoa de água bem salgada, bastante familiar.
Você jogava pedrinhas, tentando fazer com que pulassem sobre a lâmina d'água tantas vezes fossem possíveis. Foi quando uma outra pedra, que com certeza não fora atirada por você, desviou sua atenção. Lá estava eu, estampando uma serenidade atípica, rindo do espanto em seu rosto.
- Não acredito que você veio. Faz tanto tempo...
- Hoje é 22 de setembro. E eu prometi que viria. Não importa quanto tempo tenha passado. - respondi.
- Você casou?
- Não.
- Eu também não. Tem filhos?
- Não. E você?
- Que eu saiba, não.
- Como sempre, cheio de gracinhas...
- Você viu como a água está cristalina? Resultado daquele programa de despoluição, lembra? Que foi lançado quando nós...nós ainda...
- Quando ainda estávamos juntos. Sim, eu lembro. Demorou, mas pelo menos a lagoa ficou linda. Aliás, muita coisa mudou por aqui. Muitos prédios, centros comerciais, carros...peguei um engarrafamento absurdo para chegar até aqui e...
- Eu não mudei. - Você me interrompeu, um pouco nervoso, deixando claro que não era o momento para conversarmos sobre trivialidades.
- Eu também não. Ainda sou a mesma menina que você conheceu. Venho te amando calada todos esses anos. Ainda faço a nossa velha brincadeira do anel da latinha. Todas as vezes que passo pelo seu bairro, paro o carro em frente ao seu prédio, na esperança de você sair, ainda que provavelmente eu vá me esconder embaixo do banco no primeiro sinal de sua presença. Ainda tenho horror a baratas e, sempre que vejo uma (e após correr algumas centenas de metros, fazendo escândalo), começo a rir, lembrando que você sempre inventava uma desculpa para não matá-las, com vergonha de assumir para mim que também tinha pânico. Eu ainda amo comédias românticas e odeio aqueles seus filmes de II Guerra Mundial. Continuo a pessoa mais indecisa do mundo e, quando estou em dúvida entre aquele vestido ou essa blusinha(ou aquele short, ou que tal uma saia, ou acho que só uma basiquinha mesmo), sempre me pego contando à vendedora: "Menina, eu tinha um namorado com olho clínico pra roupa! Ele entrava na loja, separava tudo que eu tinha que provar... e não é que as escolhas dele sempre ficavam perfeitas?". Ainda faço nossas sessões de cinema em casa, com direito a espumante e todos aqueles petisquinhos que eu preparava pra você (gosto de chamá-las de "nossas", mesmo que hoje sejam "As sessões solitárias de cinema em casa da Lara"). Eu ainda sou a mesma, os mesmos hábitos, o mesmo...
- Colar. O mesmo colar que eu te dei de aniversário.
Foi quando eu percebi que você estava emocionado ao me reconhecer. Seus olhos me diziam que já não éramos mais dois estranhos se reencontrando. E eu compreendi que, de alguma forma, sempre estivemos lá, buscando um ao outro.
Você então pegou a minha mão e fomos caminhando, até que nossas sombras na areia se fundiram e nos fizeram entender que voltáramos a ser um só.


Acordei chorando. Um choro de alívio, de alegria. Eu não sei se acredito em mensagens transmitidas por sonhos. Só sei que segurei firme o meu colar e voltei a dormir com uma serenidade que nunca antes havia sentido, e uma certeza de que o amor não foi em vão.
Valia a pena esperar por um 22 de setembro, uma certa lagoa e uma feliz intersecção de tempo e espaço.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Rehab

Não, meu bem. Não adianta procurar. Você não vai achar o amor por aqui. Eu o escondi tal qual uma mãe desesperada esconde o dinheiro e qualquer substância química do alcance de seu filho dependente.
O amor, para nós, foi tóxico. Começou nos deixando bobos, entorpecidamente alegres.
Aos poucos, começamos a utilizá-lo como moeda de troca. “Sim, eu te decepcionei, mas toma aqui um pouquinho mais de amor e ficamos quites.” E eu aceitava de bom grado, afinal, que mal faria só mais uma dose?
E assim fomos. Quantidades cavalares de amor, sempre temperadas com promessas superestimadas e pedidos de desculpas produzidos em escala, diretamente proporcionais ao tamanho das feridas que ficavam em mim.
Foi quando percebi que estávamos completamente perdidos na desgraça de um amor paliativo, um amor “tapa buraco”.
E é por isso, meu bem, que eu o escondi bem no fundo do meu orgulho e da minha vontade de ser genuinamente feliz.
Proponho a nós dois um período de reabilitação. Eu já dei o primeiro passo. Confesso que não é fácil, o sofrimento da abstinência é enlouquecedor, mas eu te garanto: tudo valerá a pena naquele dia em que, em meio à escuridão, veremos um primeiro raiozinho de Sol e sentiremos corpo e alma preenchidos não mais pelo amor-veneno, mas por uma forma pura e vital desse sentimento tão confuso: o amor-próprio.
Boa sorte.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Meu Rio

A você, meu Rio, toda a minha saudade. Saudade de carioca "exilado" é doída, um misto de nostalgia, amor e um pinguinho de culpa. Afinal, se gostamos tanto, por que te deixamos, não é mesmo?
Não me leve a mal, querido Rio. Eu nunca o substituiria. Tenho me aventurado por outras cidades, é verdade, mas não há a menor chance de que alguma delas tome o seu lugar no meu coração.
Sei que parece um disparate de minha parte cuspir estes clichês depois de tê-lo abandonado de forma tão abrupta, mas acredite: o problema não é você, sou eu.
Mas pode ter certeza da minha lealdade: penso em você a cada banho de mar, chopp em boteco sujo, pôr-do-sol, roda de samba. Não te nego nunca, pelo contrário. Faço questão de assumir o nosso relacionamento a cada S exageradamente pronunciado ao som de X.
Quando percebo que a vida longe de você está me deixando fria, triste ou sisuda demais, trato logo de levantar a bandeira da informalidade, da irreverência, do riso fácil. E quando nem isso dá jeito na saudade doída, você sabe muito bem que volto correndo pros seus braços.
E então, depois de uma boa dose de você, posso partir revigorada...
É por essas e outras, Rio, que você pode ter certeza de que não te troco por nada.
Carrego para onde quer que eu vá essa "carioquice" aguda, sempre com aquela pontinha de esperança de vivermos juntos novamente...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

De mudança

Eu arrumava as malas como quem arrumava a vida. Tentava colocar cada coisa em seu devido lugar. Um pouco de organização, afinal, não faz mal a ninguém.
Revirei as gavetas, esvaziei o baú, limpei os armários. Aproveitei para dar aquela sacudida no coração e também para tirar a poeira dos pensamentos. Quanta coisa esquecida!
Encontrei um vestido deslumbrante que eu me lembro de ter usado apenas uma vez. Sabe aquela roupa que nunca sai de moda? Pois é...coloquei-o junto dos bons amigos, aqueles de longa data, aos quais muitas vezes eu não dei a devida atenção.
Achei um punhado de lembranças da infância e de momentos maravilhosos com a minha família. Reconheci o cheiro inigualável de comida de vó, de praia nas férias, de carinho de mãe, pai e irmã. As recordações exalavam uma felicidade tão intensa, que chegava a doer. Guardei-as cuidadosamente no porta-jóias.
Em meio à nostalgia, achei espaço para o Novo. Coloquei na mala os novos amigos, lugares e desafios (estes tomaram um espaço e tanto...).
Depois de toneladas de roupas, acessórios, livros e sentimentos, finalmente esvaziei o quarto e me senti pronta para partir. Fui caminhando decidida em direção à porta, quando tropecei em algum obstáculo e caí. Como eu não havia reparado que tudo aquilo eu varria há tempos para debaixo do tapete transformara-se naquele imenso volume?
Sentindo um frio na barriga, levantei o tapete. Uma revoada de lembranças tuas tomou conta do quarto, todas se debatendo enlouquecidamente, como pássaros ávidos por liberdade. Desesperada, tentei capturá-las, escondê-las novamente. Mas elas passavam tão rápido! Estavam todas lá: aquele sorriso na porta da faculdade, os almoços nos dias de semana, os fins de tarde na praia e todos os dias 22.
Enfim, decidi continuar meu caminho; todas as recordações, em fila, caminhavam logo atrás. Foi quando eu entendi que não nos separaríamos nunca mais. Aquelas lembranças tuas eram também pedaços de mim, partes indissociáveis da minha essência.
Respirei fundo, aceitei e amei minha constatação.
Fiz as pazes com o passado e continuei minha jornada, sentindo-me, finalmente, completa.