quinta-feira, 19 de março de 2015

Dicotomia

O que eu mais curti em você?

Pergunta fácil. O que eu mais gostei foi justamente o que eu mais odiei. Esse teu jeitinho de achar que sabe de tudo. Esse teu ar de menino alternativo que, na tentativa de ser simples, acaba por ser simplista. Esse teu jeito radical de argumentar e rejeitar aquilo que é antiquado e engessado demais  para merecer o teu respeito e fazer parte do teu mundo. Você, exalando “alternatividade”, prega a ausência de pré-julgamentos quando, na verdade, está tão impregnado deles que deixa de perceber que a beleza da vida está em fugir das generalizações pré-concebidas e reparar na riqueza de detalhes que existe em tudo.

E por que eu gostei? Porque muito me interessa essa gente que me intriga. Porque, no ápice dos teus argumentos, eu fico na dúvida entre te dar um fora ou te dar um beijo. Fico querendo pular no teu pescoço; só não sei se de raiva ou de vontade.

No auge dessa dicotomia, vem esse cheiro de você, seguido da barba densa, fazendo uma cosquinha gostosa por onde passa. Um som bacana, geralmente de alguma banda até então desconhecida por mim, faz a trilha ideal para um momento que é só nosso. Eu nem preciso dizer do que gosto; você simplesmente já sabe. E faz. E me arranca arrepios, suspiros e sorrisos satisfeitos. Parece até que você já nasceu sabendo, que veio de fábrica com a função exclusiva de desvendar meus segredos.

Você é olfato, é audição, é tato e muito paladar. Você é sinestesia pura, meu bem. É tudo junto e misturado, numa experiência inenarrável.

Só sei que me envolve, me instiga e me faz lembrar o porquê de estar ali, mergulhada no paradoxo que é você: com pitadas de arrogância e humildade; tão diferente e tão parecido comigo; tão menino e tão homem ao mesmo tempo.

Só sei que não compreendo nem metade do que gostaria. “Só sei que nada sei”.


Sei só que quero mais.

terça-feira, 10 de março de 2015

Até breve

Fui correndo, sem planejar. Cheguei um pouco afoita, olhei a fachada do prédio: na última vez em que estivera ali, deixei um punhado de lágrimas, saudades e palavras de amor. Hoje, 6 anos depois, cá estou eu novamente.
Não gosto de hospitais. Aliás...quem gosta? Tudo é frio: a temperatura, as cores, os corredores longos e vazios, o semblante de quem está só de passagem, o olhar de quem já perdeu as contas do tempo passado ali.
Lá vou eu bater na tua porta, as mãos exalando álcool em gel, o coração receoso... Quase não te reconheci. Não sei se pela palidez da tua face, não sei se pelos olhos fechados e abatidos de um sono induzido. Ou, talvez, seja porque eu nunca tenha te conhecido de verdade. Você nunca me deu uma chance...
Agora, te olhando assim, tão frágil, despida da inconstância e das explosões que lhe são tão típicas, eu reflito sobre o que traz alguém até aqui, até este ponto em que já se brincou tanto com a vida, que ela mesma se cansa e mostra seus claros sinais de esgotamento.
Meus devaneios são interrompidos pelo teu abrir de olhos. "Oi, sou eu, a Lara. Estou aqui do seu lado. Você está se sentindo bem?" Tua resposta é um choro repentino, tão arrependido que chega a doer em mim. "Calma, não se preocupe, eu estou com você."
Você se limita a dizer: "Quanto sacrifício de todos...por causa de mim." E volta a cair no sono trôpego, ainda engolindo alguns soluços.
Eu não disse mais nada. Mas pensei. Pensei que eu faria, quantas vezes fossem necessárias, aquele mesmo sacrifício. Apesar das tuas escolhas tortas, tinha muito de você em mim. Tinha laço genético e (por que não?) afetivo. E, por acreditar que o amor é doação, e não mutualidade, eu podia transmiti-lo a você, ainda que não o tivesse recebido....

Não deu tempo. A vida se esvaiu como um apagar de luzes. Novamente, vim correndo, sem planejar. Novamente, cheguei afoita e angustiada. Me aproximei, toquei tuas mãos gélidas e fechei meus olhos, procurando qualquer tipo de comunicação contigo. Falei mentalmente, e tenho certeza de que fui ouvida. Enfim, pude dizer que você tinha o meu perdão e que nenhum tipo de amarra do mundo terreno deveria te atordoar. Desejei, com todo o meu amor, que você encontrasse conforto, paz e esclarecimento. E que, munido destes tesouros, teu espírito pudesse, enfim, ganhar uma nova chance, uma nova vida. E que ela viesse plena de amor e virtudes, de modo que, a cada novo aprendizado, você desse largos passos a caminho da evolução.

Dito isso, senti meu coração acalmar e pude, enfim, me despedir serenamente, ansiosa por nosso próximo encontro.

A morte não é um "adeus". É só um fechar de olhos aqui, para um posterior abrir de portas ali, onde de fato pertencemos e merecemos estar.
A morte é um "até breve".