quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Alfabeto

Sabe aquela brincadeira de tirar o anel da latinha, enquanto dizemos as letras do alfabeto a cada movimento? Pois é, faço isso até hoje. Virou mania: a cada refrigerante (ou cerveja), repito a antiga brincadeira, com a mesma ansiedade infantil de outrora.
Achei engraçado quando você resolveu entrar no jogo.
    - Saiu a letra "P"! - eu dizia.
    - Essa é fácil! É "P" de Paixão!
    - Agora saiu "M"!
    E você, com um sorriso doce:
    - É "M" de MINHA.
Eu me derretia... e também me divertia bastante ao vê-lo quebrar a cabeça com "K", "W" ou "Z".
Mas devo confessar que sempre esperei por uma letrinha que teimava em não aparecer. Eu tentei de tudo, mas o anel nunca se soltava na primeira letra do alfabeto. Às vezes, percorríamos todas as letras e recomeçávamos o abecedário. Eu me enchia de esperança e..."B".
Hoje, algo curioso me aconteceu. Embora eu estivesse sem você, resolvi, despretensiosamente, relembrar nossa nostálgica brincadeira. Minha surpresa foi tamanha quando, ao primeiro movimento, o anel descolou da latinha. Fechei os olhos. Consegui mentalizá-lo tão perfeitamente! Parecia que você estava aqui, na minha frente, com aqueles olhos que, como sempre, me transmitiam uma familiaridade reconfortante.
    - Deu "A"! - eu te disse.
De repente, sua expressão mudou, seus olhos ficaram distantes como nunca. Eu mal conseguia distingui-lo na imagem borrada.
Você não falou nada.
Você nem precisou falar. Eu compreendi, com um certo desespero.

Não era "A" de AMOR.

Era "A" de ADEUS.

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