Não, meu bem. Não adianta procurar. Você não vai achar o amor por aqui. Eu o escondi tal qual uma mãe desesperada esconde o dinheiro e qualquer substância química do alcance de seu filho dependente.
O amor, para nós, foi tóxico. Começou nos deixando bobos, entorpecidamente alegres.
Aos poucos, começamos a utilizá-lo como moeda de troca. “Sim, eu te decepcionei, mas toma aqui um pouquinho mais de amor e ficamos quites.” E eu aceitava de bom grado, afinal, que mal faria só mais uma dose?
E assim fomos. Quantidades cavalares de amor, sempre temperadas com promessas superestimadas e pedidos de desculpas produzidos em escala, diretamente proporcionais ao tamanho das feridas que ficavam em mim.
Foi quando percebi que estávamos completamente perdidos na desgraça de um amor paliativo, um amor “tapa buraco”.
E é por isso, meu bem, que eu o escondi bem no fundo do meu orgulho e da minha vontade de ser genuinamente feliz.
Proponho a nós dois um período de reabilitação. Eu já dei o primeiro passo. Confesso que não é fácil, o sofrimento da abstinência é enlouquecedor, mas eu te garanto: tudo valerá a pena naquele dia em que, em meio à escuridão, veremos um primeiro raiozinho de Sol e sentiremos corpo e alma preenchidos não mais pelo amor-veneno, mas por uma forma pura e vital desse sentimento tão confuso: o amor-próprio.
Boa sorte.
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