Gosto da saudade.
Vivia com saudades há uns três anos, desde
quando, sob os olhares marejados dos meus pais, resolvi sair de casa. Eu tinha
vinte e um anos. Para você, pode parecer tarde; para mim, foi bruscamente cedo.
Eu não estava preparada... Mas quando estaria? Na dúvida, resolvi pular do
penhasco.
Achei que a vida me daria pára-quedas. Não deu.
Eu me espatifei no chão, caí feio mesmo, com direito a muitas costelas
quebradas e um coração em estilhaços. Senti-me só. Sabe aquela solidão tão
profunda, que chega a doer? Se não sabe, só posso te dizer uma coisa: ela
existe. E é aterradora. Te faz chorar com fotos, músicas, cheiros e vozes
queridas ao telefone; te faz negar qualquer possibilidade de ser feliz com o
novo.
Eu não sabia que era tão apegada. Desconhecia a
profundidade das minhas raízes. Entrei numa vibe
nostálgica e irritante (principalmente para aqueles que conviviam comigo), no
melhor estilo “Minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Nunca
fui muito simpatizante deste poema. Sempre achei uma besteira descabida essa
idealização da pátria, do passado, de tudo. E o que eu estava fazendo?
Exatamente isto.
Achava minha cidade perfeita, minha antiga casa
muito melhor do que a atual, cheguei ao cúmulo de andar na rua ouvindo conversa
alheia, só para detectar um sotaque próximo do meu. Nada na vida nova me
encantava: nem as paisagens, nem as pessoas. Muito menos as pessoas. Já que meu
orgulho não me permitia voltar para casa, decidi seguir em frente, carregando o
peso da minha amargura, assim como detentos e escravos, no passado, carregavam
aquelas esferas metálicas presas por correntes aos tornozelos.
Eu realmente não era uma boa companhia naquela
época: irritada, chorona, desleixada comigo mesma. Apesar de tudo, ao longo do
caminho, algumas pessoas tiveram a bondade (ou seria a coragem?) de se
aproximarem de mim. Chamaram-me para festas, barzinhos,
restaurantes. Convidaram-me para um simples (e providencial) cafezinho no
intervalo do trabalho. Uma vez, uma colega da empresa (hoje, grande amiga)
olhou bem nos meus olhos, pegou minha mão e disse:
- Olha, eu vejo que você está sofrendo muito
aqui. Não deve ser fácil ficar longe da sua família. Se você quiser um
pouquinho de aconchego familiar, vai jantar lá em casa, meus pais vão te
receber com o maior carinho!
Eu JURO para você que tem gente nesse nível de “bacaneza”
no mundo! Fiquei TÃO grata por aquilo! Uma gratidão que eu não sentia há
séculos...
E assim, sem que eu percebesse, a vida foi
ficando mais leve. Comecei a me permitir ao novo. Abri o coração e deixei que
nele entrassem novos amigos, lugares e experiências. Comecei, inclusive, a
curtir os dias em que ficava sozinha. Descobri que esses dias eram valiosos
para a alma e que, não necessariamente, estar sozinha significava ser solitária.
Revisitei a saudade e conferi a ela uma carga
positiva. Saudade, para mim, passou a ser gostinho de “quero mais”. Passou a
ser a certeza de que foi bom e que valia repetir.
E foi assim que me reenergizei. Junto com as
boas energias, vieram as boas-novas: a vida, mais uma vez, me convidou a mudar.
Eu fui. Com a cara, a coragem e as histórias que havia colecionado até então.
Hoje, estou fisicamente ainda mais distante,
mas me sinto mais próxima. Amo aqui e ali. Amo os de cá e os de lá. Cultivo uma saudade leve, dessas boas de
acumular bastante, até explodir num esperado encontro. Fiz desse sentimento algo
gostoso de sentir, algo que te faz ter gratidão por todos que a vida de teu.
Não é bom viver COM saudade. Coisa boa, mas boa
mesmo, é viver DE saudade.
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