sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Meu destinatário

Vez ou outra, algumas pessoas me perguntam para quem eu escrevo. Aliás, já recebi um lisonjeado agradecimento pela belíssima "dedicatória" que havia escrito:
- Que dedicatória? - minha expressão não poderia ter sido mais estupefata.
- Aquele texto que você publicou recentemente no seu blog. Percebi que foi pra mim. Me vi ali nas suas palavras. Obrigado, achei lindo.
- Mas o que te fez pensar que o texto se dirigia a você?
- Ah, muitas coisas...principalmente porque você termina o post com "Para um amor no Recife", do Paulinho da Viola. Ali, não tive dúvidas de que era pra mim.
- Bem... pode ser para você, então. Se isso te agrada...
- Mas não é?
- É o que você quiser que seja.
Fim do assunto e início de um ponto de interrogação gigante pairando sobre a cabeça do meu colega...
Para completar, recentemente, fui surpreendida pelo seguinte comentário:
- Li seu blog. Não acho isso legal não, é muita exposição da sua vida.
Ainda tentei argumentar que, não necessariamente, era a minha vida a ser retratada ali. Fui vencida pela preguiça de entrar em um debate, enquanto uma cerveja gelada aguardava à minha frente, na esperança de que eu calasse a boca e não cometesse o disparate de deixá-la esquentar.
Agora, sem distrações e sem cerveja, me ponho a perguntar: por que preciso escrever para alguém?
A escrita, pelo menos a minha, não tem necessariamente um destinatário. Acho, inclusive, que aí é que está a beleza da coisa. As palavras cairão como luva àqueles que estiverem aptos a recebê-las. É tudo uma questão de encaixe...
Outra coisa que eu não posso garantir é que seja eu a narradora de todos os textos. Embora escritos por mim, são contados ou vividos por diferentes Laras, nos mais variados estados de espírito e matéria, sob as mais diversas intempéries psicológicas.
E, por favor, não esqueçamos nunca da subjetividade, da metáfora, da poesia. Exatamente aquilo que dá múltiplo sentido à vida e nos permite ler o mundo além do que se vê. A gente tem mania de querer tudo concreto, né?
Pois fique sabendo que a realidade, essa que está aí, tão objetiva e clara na sua frente, nada mais é do que aquilo que você quer ver. Os meus olhos a enxergarão de modo diferente dos seus. E isso é lindo!

Porque, convenhamos: coisa mais sem graça seria viver num mundo literal...

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