quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O barco

Hoje eu pensei em você, meu bem. Na verdade, tenho pensado ininterruptamente em você desde a última vez em que nos vimos, quando olhei fundo nos seus olhos e simplesmente não te encontrei. Eu me desesperei em silêncio, pensando em onde você poderia estar e em que momento de nossas vidas eu deixei você partir. Tentei disfarçar, mas por trás daquela naturalidade forjada surgiam milhões de perguntas. Há quanto tempo eu vinha convivendo com um estranho? Por que não percebi isso antes? Onde ficou perdida a sua essência? Ou será que eu mesma havia me perdido pelo caminho?

Se eu e você não somos mais os mesmos, já não importa mais. Triste mesmo é não sermos mais um só. Eu tentei, eu juro! Mas não há remendo, cola ou nó que reate o laço. De repente, nos tornamos imiscíveis, meu bem. Tal qual água e óleo. Tal qual eu e você...

Eu queria me esconder atrás de qualquer desculpa. Eu queria dizer que "não é você, sou eu". Mas ambos sabemos o que aconteceu, apenas fingimos ignorância. Ambos lembramos daquele dia. Daquele barco, da tempestade. De como eu tentei te segurar e de como você, impenetrável, soltou a minha mão.

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