Fui correndo, sem planejar. Cheguei um pouco afoita, olhei a fachada do prédio: na última vez em que estivera ali, deixei um punhado de lágrimas, saudades e palavras de amor. Hoje, 6 anos depois, cá estou eu novamente.
Não gosto de hospitais. Aliás...quem gosta? Tudo é frio: a temperatura, as cores, os corredores longos e vazios, o semblante de quem está só de passagem, o olhar de quem já perdeu as contas do tempo passado ali.
Lá vou eu bater na tua porta, as mãos exalando álcool em gel, o coração receoso... Quase não te reconheci. Não sei se pela palidez da tua face, não sei se pelos olhos fechados e abatidos de um sono induzido. Ou, talvez, seja porque eu nunca tenha te conhecido de verdade. Você nunca me deu uma chance...
Agora, te olhando assim, tão frágil, despida da inconstância e das explosões que lhe são tão típicas, eu reflito sobre o que traz alguém até aqui, até este ponto em que já se brincou tanto com a vida, que ela mesma se cansa e mostra seus claros sinais de esgotamento.
Meus devaneios são interrompidos pelo teu abrir de olhos. "Oi, sou eu, a Lara. Estou aqui do seu lado. Você está se sentindo bem?" Tua resposta é um choro repentino, tão arrependido que chega a doer em mim. "Calma, não se preocupe, eu estou com você."
Você se limita a dizer: "Quanto sacrifício de todos...por causa de mim." E volta a cair no sono trôpego, ainda engolindo alguns soluços.
Eu não disse mais nada. Mas pensei. Pensei que eu faria, quantas vezes fossem necessárias, aquele mesmo sacrifício. Apesar das tuas escolhas tortas, tinha muito de você em mim. Tinha laço genético e (por que não?) afetivo. E, por acreditar que o amor é doação, e não mutualidade, eu podia transmiti-lo a você, ainda que não o tivesse recebido....
Não deu tempo. A vida se esvaiu como um apagar de luzes. Novamente, vim correndo, sem planejar. Novamente, cheguei afoita e angustiada. Me aproximei, toquei tuas mãos gélidas e fechei meus olhos, procurando qualquer tipo de comunicação contigo. Falei mentalmente, e tenho certeza de que fui ouvida. Enfim, pude dizer que você tinha o meu perdão e que nenhum tipo de amarra do mundo terreno deveria te atordoar. Desejei, com todo o meu amor, que você encontrasse conforto, paz e esclarecimento. E que, munido destes tesouros, teu espírito pudesse, enfim, ganhar uma nova chance, uma nova vida. E que ela viesse plena de amor e virtudes, de modo que, a cada novo aprendizado, você desse largos passos a caminho da evolução.
Dito isso, senti meu coração acalmar e pude, enfim, me despedir serenamente, ansiosa por nosso próximo encontro.
A morte não é um "adeus". É só um fechar de olhos aqui, para um posterior abrir de portas ali, onde de fato pertencemos e merecemos estar.
A morte é um "até breve".
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