sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quente

O Jardim Botânico é um bairro carioca um tanto quanto singular. Pergunte a qualquer um a respeito, e a definição que se ouvirá será sempre bem próxima a "um bairro calmo, cult, arborizado, residencial, charmoso, bom para crianças e idosos."
Pois bem. Amo esta paz, tenho imenso prazer em caminhar pelas ruazinhas tranquilas, mas sempre tive em mente que não se poderia esperar nada mais deste lugar. Tudo estaria sempre em harmonia, na mais perfeita estabilidade. Se, por acaso, minha vida desse uma reviravolta, borboletas viessem ao estômago e os pés parassem de tocar o chão, com certeza não seria no Jardim Botânico. 


...

Você percebeu que, quando nos esbarramos, rolaram alguns segundos (minutos, talvez?) de comunicação não verbal? Eu, que falo através do sorriso, fiquei surpresa ao vê-lo me responder só com o olhar. Seja lá o que tenha sido dito naquele breve momento, nós dois compreendemos perfeitamente.
Dessa forma, seguiram-se dias de longas conversas, às vezes regadas a vinho, outras vezes acompanhadas de uma cervejinha gelada. Falamos sobre o bairro, trocamos dicas dos nossos cantinhos prediletos, combinamos até mesmo uma expedição para desbravarmos os picos desconhecidos do Jardim Botânico, esse lugar tão meu e tão seu, que nos separava (ao mesmo tempo em que nos conectava) com apenas quatro ruas de distância.
A cada riso, a cada palavra, eu queria mais e mais. Queria o quê? Sei lá. Só sabia que tinha vontade. Tinha tanto magnetismo entre a gente que eu já não compreendia como manteríamos nossos ímãs afastados.
Tem beijo que é capaz de despertar um tsunami dentro da gente. Acho incrível quando rola esse tipo de conexão. Entretanto, não consegui nem expressar a minha surpresa quando, muito antes da tua boca pensar em encostar na minha, os teus olhos penetrantes já me arrancaram calafrios. Você olha de um jeito intenso, parece que consegue enxergar dentro de mim.
Você veio direto daquela forminha, da Fábrica de Caras Ideais Ltda., preenchendo todos os requisitos do departamento de controle de qualidade: barba densa, jeitinho alternativo, gosto musical bacana e um toque único, daqueles que dão choque quando as peles se encostam. É sério, meu bem: eu poderia morar no seu abraço.
Prontamente, minha razão alertou: "Cuidado, garota. O último barbudo fez um estrago na casa. Seja ponderada, feche a porta e não deixe mais entrar visita." Todavia, meu coração, esse grande inconsequente, respondeu: "Foda-se, mulher! Vive tudo enquanto durar! No fim, se precisar, a gente cata os caquinhos e te restaura novamente." Simpatizei mais com o segundo conselho.
Me joguei, de olhos fechados, no penhasco. Caí numa cama macia que, se pudesse falar, contaria para o mundo certas coisas indizíveis.
Depois disso, eu nem sei mais contar direito. Me perco na ordem dos acontecimentos, da mesma forma que me perdi no teu corpo. Minha tatuagem de âncora no tornozelo movia-se de forma pouco cadenciada, para cima e para baixo, para frente e para trás, como se estivesse numa tempestade em alto mar. De fato, o que ocorria ali era bem próximo da ferocidade de um desastre natural. Ainda bem: eu gosto mesmo é do estrago.
Sempre conversamos sobre o micro-clima do Jardim Botânico. O Rio pode estar pegando fogo, as ruas de Bangu em estado de alerta para o calor de 50 graus... mas, aqui no JB, teremos sempre esse friozinho, essa temperatura amena que pede um casaco. Ou um abraço. Ou um amasso.
Lá fora, fazia frio. Todavia, emanávamos calor suficiente para derreter a nós mesmos, tornando-nos um só. E foi assim que, em meio a suor e saliva, entre absurdos sussurrados no ouvido e tudo que se pode querer, imaginar e realizar com alguém, nós nos afogamos nas profundezas do teu quarto aconchegante até o dia raiar.

Ofegante e esgotado, você olha para mim e faz apenas uma pergunta antes de cairmos em sono pesado, num encaixe perfeito:
- Onde você esteve todos esses anos?


...

Da minha varanda, contemplo o verde do Jardim Botânico. O silêncio reina. Penso sobre o quanto amo essa paz. Entretanto, um sorriso satisfeito me inunda quando lembro que, agora, posso quebrar a calmaria se assim desejar. Logo ali, a quatro ruas de distância, eu posso tomar minhas doses cavalares de caos. Do nosso caos.

Definitivamente, eu amo o meu bairro.

"Falando absurdos
Virando a noite
Perdendo o senso
Derretendo satélites"


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