Pousei em Recife sem saber o que sentiria. Da última vez em que estive ali, cortei um laço importante de forma um tanto quanto brusca. Vivi momentos intensos, porém derradeiros. Deixei contigo algumas lágrimas, um "adeus" e um punhado de palavras fortes, que expressavam claramente tudo o que eu sentia de mais puro e verdadeiro.
Entretanto, o afastamento nos proporciona o ponto de vista ideal para uma análise mais realista. Quando estamos envolvidos com alguém, passamos a tolerar certas atitudes e palavras cortantes, sem que tenhamos consciência disso. Dessa forma, quando me pus de espectadora da história de nós dois, pude perceber o quanto da minha essência foi se perdendo por ali. Sem querer, fui deixando pelo caminho toda a minha energia. Você tinha a infeliz capacidade de sugar o que havia de bom em mim.
Com o passar do tempo, a vida foi retomando o seu curso normal: me rodeei de amigos, vivi novas experiências e conheci um tanto de gente bacana. Todavia, ainda faltava alguma coisa. Faltava reencontrar o meu brilho. E eu sabia muito bem onde ele havia se perdido.
Cheguei em Recife de surpresa e surgi, do nada, no meio daqueles que amo. Arranquei gritos de susto, lágrimas de alegria, abraços apertados, beijos calorosos. Sorri largamente e ri até a barriga doer. Em meio à trilha sonora de Nação Zumbi, ouvi um "Muito obrigada por vir. Você não sabe o bem que me fez. Você não sabe o quanto eu te amo." E foi aí que senti meu coração, enfim, ser preenchido por inteiro.
Que delícia estar de volta à minha segunda casa, do jeitinho que era antes, do jeitinho que tem que ser para sempre: cercada de gente leve, de conversas agradáveis, de palavras doces. Longe de você e daquela nuvenzinha negra que se instaurava quando eu estava perto de ti. Nuvenzinha carregada de discussões pesadas e polêmicas, de discordâncias chatas, de palavras e assuntos que pareciam ser escolhidos com o único intuito de chocar e ferir. Recife, como é típico desta época do ano, estava chuvoso. Entretanto, no meu coração, o dia era ensolarado. Nenhum sinal de nuvens cinzentas, e, mesmo que aparecessem, minha fortaleza jamais permitiria que se instaurassem novamente.
E foi nessa atmosfera mágica que alguém me olhou bem nos olhos, abriu um sorriso carregado de ternura e soltou a mais feliz das constatações:
- Larinha, o teu brilho voltou! Agora, sim, eu vejo você inteira! A Lara de sempre: aquela que tem riso frouxo e que faz todos rirem também; aquela que chega e ilumina os locais, as pessoas, as conversas. Amiga, como é bom ter você de volta!
Bem, assim como o riso, as minhas lágrimas são igualmente frouxas, de forma que jorraram instantaneamente. Entretanto, dessa vez, não era choro de tristeza. Era de alegria, de alívio, de amor! Era da satisfação de reencontrar minha luz e de poder irradiá-la tão intensamente que contagiava até os mais frios.
No vôo de retorno ao Rio de Janeiro, vim pensando em como a vida e o tempo são, de fato, capazes de curar até as feridas mais profundas. Entretanto, precisamos também fazer a nossa parte. Devemos zelar por nossa essência, por aquilo que nos torna tão únicos e especiais. Temos que ser capazes de perceber quando estamos nos perdendo pelo caminho e, rapidamente, mudar o curso do barco rumo às águas calmas novamente.
Foi assim que, finalmente, consegui resgatar meu brilho interior e me reconectar comigo mesma.
Olá, Lara. Bem-vinda de volta :)
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