domingo, 21 de junho de 2015

Você de volta

No dia em que você ligou, eu estava ao avesso. O coração, ferido e apático, pareceu levar uma injeção de adrenalina ao reconhecer sua voz do outro lado. 

- Lara?
- Oi...
- Você ainda está em Recife?
- Como você sabe que eu vim?
- Te vi no barzinho, anteontem. Por um momento, pensei que você havia olhado para mim. Concluí que optou por não me cumprimentar.
- Eu nunca faria isso! Eu não te vi. Juro!
- E se não fosse sem querer, você me veria?
- Oi? - Coração quase escapando pela boca.
- Eu quero te ver. Conversar contigo. Pode?
- Sim... claro que pode.
- Hoje?
- Pode ser amanhã? Hoje, o dia está um pouco confuso... - "Confuso? Hoje, você é o retrato do apocalipse, mulher!", disse o meu coração.
- Pode, sim. Você tá hospedada na casa da sua tia, certo? Te busco às 15h00.
- Como você sabe que eu estou lá???
- Até parece que eu não te conheço, Lara.

Você só aparece assim, de surpresa. Da última vez, ressurgiu das cinzas, brotou no meu apartamento a três dias da minha partida e disse um punhado de coisas que deveriam ter sido expostas antes, muuuuito antes.

Todavia, lá estava eu, num domingo cinza, às 15h07, correndo pelas escadas. Atrasada, como sempre.
E lá estava você: a mesma barba, o mesmo tom da pele bronzeada, a mesma placa de carro de Olinda-PE... e aquele sorrisinho de canto de boca, TÃO seu. "Cacete. Ele continua lindo." - constatou meu coração.

- Secando a franja, certo? Por isso, o atraso.
- Acertou.
- Suponho que você vá gostar da idéia de um cafezinho nesta tarde chuvosa.
- Acertou novamente. Acho que sou previsível demais...
- Não é não. Eu é que te conheço demais.
Sabe-se lá porque, fui tomada por um arrepio danado depois dessa última frase. Preferi, então, me manter em silêncio.

Eu, olhando para a xícara, tentando decifrar algum desenho na espuma que se formara no capuccino. Você, olhando para mim. Eu nem me atrevia a tentar decifrar o que se passava nos seus bastidores.

- Surpresa com a minha ligação?
- Muito.
- Estava um barulho danado... você estava num bar?
- Sim. Fui tomar um choppinho com as meninas.
- Suas amigas ainda me chamam de "O Louco do Crepe"?
- Sim! hahahahha
- Odeio esse apelido!
- Meu bem, quem é que propõe, como primeiro encontro, levar a menina para comer um crepe? E quem é que fura a programação do bendito crepe umas 10 vezes seguidas? Só pode ser O Louco do Crepe!
- hahahahahaha! E, quando finalmente fomos à creperia, você pediu...uma salada!
- Foi só pra contrariar...
- Eu sei que foi. Eu te conheço, Lara. Já disse.

Você e essa mania de me deixar sem resposta! Eu, que sempre falo tanto, sempre tão cheia de opinião e de razão (ok, nem sempre), me vejo sem palavras diante de algumas colocações tuas.

- Você não esquece isso, né?
- Passei a odiar essa palavra. "Incrível". Mas, enfim... onde está ele? O que faz você, num domingo à tarde, sem ele? E comigo... - Seu sorrisinho de canto de boca, agora, ganhava um tom de deboche.
- Tendo em vista alguns acontecimentos recentes, concluo que o "Cara Incrível" não é tão incrível assim...pelo menos, não comigo.
- Eu sabia! Se ele fosse assim tão foda, tinha conquistado mais do que uma simples menção, num texto que foi inteirinho só meu!
- Garoto, você não muda mesmo, né? Onde você guarda todo o seu ego? Porque eu tenho cer-te-za de que não cabe aí dentro. - Mesmo irritada com os seus comentários idiotas, eu não consegui segurar o riso. Você sempre me fez rir e sorrir. "E foi exatamente isso que fez você gostar dele, mulher!" - disse meu coração intrometido.
- Cabe muita coisa aqui dentro, Lara. Cabe, por exemplo, uma saudade danada de você. Foi por isso que eu te procurei. Quando vi que você estava em Recife, não quis perder a oportunidade de te dizer... - Seu silêncio veio na hora mais inapropriada possível. "Dizer o quê, criatura???" - meu coração, sucumbindo de curiosidade.
- Dizer o quê?
- Que eu queria você na minha vida. Do jeito que tudo começou. Daquela forma leve que a gente tinha de viver tudo o que rolava entre nós. Da última vez em que nos vimos, conversamos bastante e nos reconciliamos. Pelo menos, foi o que eu pensei. Entretanto, você foi embora para o Rio de Janeiro e parece que nos perdemos novamente. Eu gosto de você, é muito bom estar contigo. Você é uma pessoa ímpar. E, quando estávamos em paz, nós nos dávamos tão bem! Eu sinto a sua falta. Não quero que você simplesmente passe pela minha vida. Eu quero que fique. Assim como eu te conheço, você também me conhece bem o suficiente para saber que, neste exato momento, eu estou me despindo de todo o meu orgulho para poder te falar tudo isso.

UAU. Por essa, eu não esperava. Eu estava tão machucada até então... e todas aquelas palavras pareciam simplesmente me curar aos poucos. 

- Sim, eu te conheço. E você não imagina o quanto estou feliz com tudo isso aqui: a tua presença, essa conversa, as risadas, a tua sinceridade. Nossa, isso me fazia MUITA falta. VOCÊ faz falta. Eu gosto muito de você. Entretanto, hoje, é um gostar um pouco diferente. Um bem-querer mais maduro. Tem muito mais carinho do que qualquer outra coisa.
- Em resumo, você quer dizer o quê?
- Que eu também te quero na minha vida. Eu ainda quero rir muito contigo, dividir nossas histórias. Eu quero vir a Recife e ter mais tardes gostosas como essa. Quero que você vá ao Rio e que a gente vá a lugares lindos, cheios de paisagens bacanas para encher teu Instagram de vida de novela. Eu descobri que a gente funciona melhor assim, do jeitinho que estamos agora: sem cobranças, sem brigas, sem corações partidos. Nós funcionamos muito bem como amigos.
- Só amigos? E pronto?
- Por ora, sim. 
- Sendo assim, você continua na minha vida?
- Claro! Dou a minha palavra. E você? Promete que não vai fugir de novo?
- Nunca mais.

E, dessa forma, o tempo passou sem que percebêssemos. Teve tanta troca entre a gente! De energia, de sorrisos, de assuntos e de carinho.
E eu finalmente compreendi que, nem sempre, teremos as pessoas da forma como queremos. E não adianta insistir. Forçar a barra só vai afastá-las de nós. Mais maduro e eficaz é tentar encaixá-las de outra forma em nossas vidas. Se alguém realmente importa para nós, só não vale deixarmos que escape.

Você é assim para mim. Agora que eu entendi como podemos dar certo, não te largo mais. Bem-vindo de volta à minha vida. "E, dessa vez, para sempre." - diz o meu coração, finalmente, em paz.






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