O tempo passou rápido demais. Quando menos percebemos, já estávamos aqui e agora. A poucos dias de nos encontrarmos novamente. Há quarenta dias desde a última vez que nos vimos, nos ferimos, nos abrimos e enfim partimos, cada um para o seu lado, mas ambos repletos de esperanças e promessas de um recomeço.
Certa vez, você disse que a distância acabaria por esfriar as coisas. Discordo. O que esfria é o comodismo, o medo da entrega, o orgulho. O que esfria é a maneira simplista de encarar emoções complexas, como a saudade, a incerteza, a insegurança. O que esfria é a ausência do "sentir".
Nada contra o seu desapego. Acho até saudável - para você. O problema é quando se simplifica demais as coisas, inclusive os sentimentos. Você acaba tornando tudo muito superficial. É claro que a distância atrapalha. É muito mais fácil quando se pode tocar, beijar, olhar bem nos olhos. Mas não sejamos desonestos com nós mesmos: precisamos assumir que a grande responsabilidade é nossa. Nós temos o controle de nossas vidas e devemos levar toda a culpa se não mais conseguimos torná-las convergentes.
Nada contra a sua essência racional e fria. Acho até uma boa forma de proteger - a você mesmo. O problema é que você deixa lacunas em mim, no meu coração. Dois corpos não ocupam um mesmo espaço simultaneamente. Mas deixe que um deles saia, nem que seja por alguns instantes, e outro já poderá preencher o vazio.
Eu nunca quis que o teu contorno, antes tão nítido nos meus pensamentos, virasse uma linha pontilhada. Tenho medo de que se apague. Ainda bem que eu escrevo, aqui, a história de nós dois. Não quero que fiquemos sem memória.
"Uma reta é um conjunto infinito de pontos. Um ponto é uma entidade geométrica adimensional, ou seja, um ponto não tem altura, comprimento ou largura."
Imagine, pois, que a vida é uma reta, uma infinita linha do tempo. Nela, em meio a milhões de pontos, está a nossa história, tão intensa, tão absurda, transpondo qualquer dimensão. É esse singular pontinho que devemos preservar, não importa quanto tempo passe. Dentre tantas histórias, existirá, para sempre, a nossa. Única. Melodramática. Linda.
Me ajuda a zelar pelo nosso pontinho.
Do amoroso esquecimento
Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mario Quintana
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