quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

É proibido chorar

   Quando o choro veio na garganta, numa quinta-feira qualquer de Janeiro, ela não teve dúvidas: seria um dia “daqueles”.
   Estava no auge da TPM, a barriguinha-pochete que ganhara nas férias teimava em não sumir, uma pessoa muito amada estava com problemas de saúde, outra pessoa amada estava de mudança para o outro lado do mundo, as coisas não terminaram bem justo com aquele carinha que ela havia curtido pra caramba, logo com ele, que tinha um papo tão bacana e que parecia ser tão interessante. Pois é. PARECIA. “Nota mental: ‘Nem tudo que parece, de fato é’. Fazer desta frase meu mantra diário.”
   Todos esses motivos, somados, viraram uma bomba. E ela PRECISAVA explodir. Aquela tensão acumulada tinha que sair, ir pro espaço! Isso só aconteceria com um choro daqueles, de soluços audíveis, lágrimas jorrando como as chuvas em São Paulo, deixando sua aparência, sempre tão doce, em verdadeiro estado de calamidade pública. Era esse tipo de choro que estava por vir. Mas ela o engoliu. Obviamente, com um baita esforço. Mas engoliu.
   E por quê? Porque chorar era proibido. Como ficaria sua imagem no trabalho, caso caísse em prantos? Pobre menina imatura, sem inteligência emocional. Era isso o que pensariam dela. Na rua não dava, as pessoas a olhariam torto, umas penalizadas, outras curiosas até demais. Que tal num barzinho, com aquela boa amiga ouvinte? De forma alguma! O que iriam pensar? Que ela estava bêbada, com certeza.
   Ela olhava em sua volta e não encontrava nenhum espacinho para ficar triste. No Facebook, todos estavam plenamente felizes. No Instagram, todos estavam plenamente felizes, sarados, bronzeados e fazendo pose com seus paus de selfie. Na lei das redes sociais, a gente era obrigado a ser feliz.
De repente, uma nova onda de choro veio como Tsunami na garganta. Ela levantou da cadeira, correu para o hall, ia pegar o elevador e se trancar no banheiro da portaria. Não deu tempo. As lágrimas escorreram ali mesmo, no corredor social, com uma platéia do escritório vizinho assistindo perplexa, do outro lado da porta de vidro.
   “Quer saber? Que se danem. Estou chorando sim, estou triste pra cacete e preciso vomitar toda essa melancolia que toma conta de mim.” E foi com este pensamento que ela pegou o carro e foi almoçar no shopping, para refrescar a mente. Soluçou durante todo o percurso, urrou de dor, assustando o pobre do garoto que só queria ganhar um trocadinho fazendo malabarismo.

   Dentro e fora das lojas, gente horrorizada olhava para seu rosto completamente inchado, molhado e vermelho. Mas ela já não se importava mais. Só sabia que aquilo estava fazendo bem. Aos poucos, a tristeza aliviava, a ansiedade se esvaía e uma tímida serenidade surgia. “Podem me olhar, suas máquinas ambulantes. EU SOU HUMANA.” E terminou sua refeição calmamente, sentindo-se plenamente sincera consigo mesma e com seus sentimentos.

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