Eu, despretensiosamente, me deliciava com uma bela de uma tapioca no Alto da Sé. Para mim, aquilo era o retrato de um final de domingo feliz. Nada me faltava: tinha o Sol se pondo, uma paisagem linda de viver e aquele fluxo colorido e enérgico de gente bonita e descolada de Olinda.
Mal sabia eu que aquela cena estava, sim, incompleta. Faltava o personagem principal. Quis o destino que estivesse a menos de um metro de distância, apoiado, assim como eu, no balcão da barraca.
- Quanto é a tapioca, moça? A minha foi a de carne seca.
- Charque.
- Oi? - Eu olhei, um tanto quanto surpresa, para o dono da voz masculina ao meu lado.
Você, com os cabelos escuros e bagunçados, a barba densa e a pele bronzeada, sustentava um sorrisinho besta de deboche.
- Aqui se fala "charque". Não fala "carne seca".
- Ah, tá. Foi mal aí. Moça, tá aqui o dinheiro da tapioca de CHAR-QUE. - Minha voz em tom provocativo...
- Oxe, deixe de brabeza! Toda carioca é marrenta, mas tu é demais. Tu se amostra.
- Eu acho que você conheceu as cariocas erradas.
Pronto. Estava completo o elenco da história de nós dois.
A conversa permeou por múltiplos assuntos, presenciou o anoitecer em Olinda e terminou com uma carona para Recife. Desde então, você fez parte dos trechos mais poéticos da minha vivência pernambucana.
Foram risadas e cervejas ao som de Nação Zumbi. Foram mergulhos refrescantes no Pontal de Maracaípe, que sempre terminavam em uma boa prosa no Bar do Galo. No Baile Perfumado, você tentava me ensinar a dançar juntinho e, entre sorrisos e algumas pisadas no seu pé, eu me dava conta do quão diferentes nós éramos.
Você falava "oxe"; eu dizia "cara". Você era frevo e eu, samba. Eu, Flamengo; você, Sport. Eu, carioca; você, pernambucano. E, assim, nós vivíamos, às vezes na cadência de uma ciranda de Lia, outras vezes, embolados no compasso do Maracatu.
Entre um beijo roubado no Marco Zero e devolvido no Bar Central, você, tão bairrista e orgulhoso, cedia à minha carioquice aguda e cruzava a cidade, de Casa Forte à zona sul, só para ver o meu mais sincero sorriso se abrir com a tua chegada.
Nós dois preferíamos não pensar na minha partida, que se aproximava tão depressa quanto a quarta-feira ingrata, que cala os gritos de Carnaval. "Melhor assim", eu pensava. Deixei com o tempo a árdua tarefa de correr; dei a mim a doce tarefa de viver. E cada dia contigo seria vivido como se fosse o último.
No meu sonho recifense, eu era dona do roteiro e escolhia meu personagem.
E já estava decidido.
Eu seria, para sempre, a sua "moça bonita da praia de Boa Viagem".
Alceu Valença e Orquestra de Ouro Preto - La Belle De Jour
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