domingo, 11 de janeiro de 2015

O segundo encontro

Eu amo os segundos encontros. Considero-os infinitamente mais interessantes e reveladores do que os primeiros.
Por segundo encontro, entende-se tanto aquela ocasião planejada (por exemplo, aquele bom e velho choppinho marcado por whatsapp), como aquele momento completamente inesperado, tipo um esbarrão com o dito cujo bem na fila para pegar bebida na festa (se bem que, nesses casos, o encontro pode até ser meio forjado, caso você tenha visto o cara confirmar presença no evento do facebook e tenha se despencado até lá só por causa disso. Mas, enfim, vamos fingir que foi por acaso, né?).
Eu gosto de segundos encontros porque eles são, na minha opinião, "A Hora Da Verdade". Agora, ou vai, ou racha.

Na primeira vez, geralmente, estamos um tanto quanto nervosos, ou bêbados, ou produzidos demais, ou completamente descabelados e com a maquiagem borrada. Tenho a sensação de que nunca somos inteiramente nós mesmos em nosso primeiro contato com alguém. A insegurança do desconhecido, a incerteza do que virá em seguida, a ansiedade de especular o que o outro está pensando a nosso respeito... tudo isso colabora para que fiquemos mais travados ou para que, às vezes, esbanjemos uma segurança forçada, uma tranquilidade quase teatral.

E, assim, chegamos em casa, refletindo sobre as últimas horas passadas ao lado de sei-lá-quem. Formulamos conclusões precipitadas, baseadas em observações inconclusivas. Porque, convenhamos: qual o julgamento que podemos fazer de alguém com apenas um único contato?
E eis que surge a pergunta de um milhão de reais: "Será que nos veremos novamente?". É isso que torna os segundos encontros tão mágicos: eles são almejados, fantasiados.
Além disso, possuem múltiplos desdobramentos, nos apresentando sempre a novas perspectivas.

Por exemplo, nos casos de primeiros encontros um pouco frustrantes, ou até mesmo desastrosos, com aquela pessoa que parecia ser tão interessante, mas que simplesmente não entrou em sintonia com você: a conversa não fluiu, as vibrações não se encontraram, ou surgiu qualquer outro incidente menos nobre e nem tão místico assim. Pode parecer insanidade insistir no erro, mas acredite: nessas situações, segundos encontros são muito válidos. Eu diria, inclusive, que são necessários. Por um lado, podem apenas confirmar as más impressões do primeiro contato. Ainda assim, valem a pena: cada um segue o seu caminho, com a certeza da desarmonia entre os dois e o conforto de ter evitado frustrações futuras.

Por outro lado, podem nos reservar gratas surpresas, desfazer mal entendidos e nos deixar completamente pasmos com a constatação de que "caramba, era bem melhor do que eu pensava!". Nada melhor do que desconstruir uma imagem equivocadamente formulada sobre o outro ou sobre nós mesmos, jogar máscaras e armas no chão e simplesmente deixar fluir qualquer coisa boa que possa vir.

Não podemos esquecer dos segundos encontros que fecham portas. Aqueles que, depois de um primeiro encontro promissor, salpicado de "química" e esperanças, acaba por revelar uma realidade um tanto quanto amarga: vocês não combinavam tanto assim. Ele não é um príncipe encantado; o papo dela é um pouco chato; ele se mostrou carente demais; ela pareceu muito ciumenta. Há milhões de razões para uma segunda vez decepcionante. Nesse caso, que bom perceberem, logo cedo, que eram incompatíveis! Pouparam tempo e, talvez, algumas lágrimas. Ou, quem sabe, não vale uma terceira tentativa, só para ter certeza, para tirar a prova real?

Entretanto, há aquele segundo encontro que supera o êxito do primeiro, que confirma todas as boas expectativas que criamos. Por mais raras que possam parecer, tais situações de fato existem e dependem muito mais de nós mesmos do que de qualquer configuração cósmica ou simpatia amorosa. Trata-se de uma confluência de boas energias, de corações abertos e destemidos, de espíritos igualmente sedentos por certos estados de graça que só são alcançados quando nos desapegamos de pré-julgamentos e preocupações com opiniões alheias.

Nem preciso dizer que já passei por todas as situações descritas acima, embora, obviamente, tenha uma significativa queda por este último caso. Contudo, toda sorte de encontro é bem-vinda, seja o primeiro, o segundo, o terceiro ou o milésimo. Toda experiência com alguém nos traz aprendizado, enriquece nossa bagagem de vida ou, no mínimo, nos livra de uma roubada.
O que importa é se dar a chance de passar por isso e, principalmente, dar ao outro a chance de se apresentar, de mostrar a que veio e o que traz em sua mochila. E isso, meu bem, nem sempre acontece de primeira.

Logo, considere sempre a possibilidade de uma nova oportunidade. Você não irá se arrepender.

E viva os segundos encontros!



Teresa

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.


Manuel Bandeira

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