segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Falei de você

Nunca pensei que estaria com o corpo em Recife e a cabeça no Rio. Até pouco tempo atrás, acontecia exatamente o contrário. Não sei em que momento as coisas mudaram dentro de mim.
Aliás, justamente por não compreender muito bem como ocorreu o processo migratório dos meus pensamentos no eixo Pernambuco-Rio de Janeiro, justamente por não saber explicar com exatidão o que eu sentia (e queria), é que eu desejei ansiosamente este feriadão de 7 de Setembro.

Eu precisava entender como se comportaria o meu coração longe de você e perto de lugares e pessoas que compunham um passado recente e conturbado.

Para minha surpresa, não precisei reservar um minuto sequer para reflexões sobre nós dois. Você aparecia naturalmente nos momentos mais felizes. Eu podia te imaginar de forma tão nítida, que minhas retinas conseguiam te projetar perfeitamente nos cenários mágicos que faziam parte dos meus dias. Foi assim que estivemos juntos nas águas do mar e do rio, nas noites estreladas, no pôr do sol de arrancar sorrisos contemplativos.

Eu falava de você com aquele encanto típico do começo, de quando ainda somos novidade um para o outro e, por isso mesmo, compartilhamos daquele friozinho gostoso na barriga que se sente a cada descoberta. Se dependesse de mim, meu bem, esse brilho não ficaria restrito ao início, mas perduraria por nossos caminhos enquanto nossas estradas seguissem juntas.

Os dias aqui se passaram sem nenhum resquício das angústias de outrora. Aproveitei o meu Recife com aqueles que amo, matei as saudades, ri até a barriga doer, dancei como se o mundo fosse acabar, mandei a dieta pro espaço e me entreguei aos excessos das delícias gastronômicas locais. Foi tudo lindo!

Todavia, é hora de voltar. E, pela primeira vez em tanto tempo, eu QUERO voltar. Deixei um pedaço importante de mim no Rio de Janeiro, e preciso dele para ser inteira. 

Me espera, meu bem, que eu tô chegando pra buscar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quente

O Jardim Botânico é um bairro carioca um tanto quanto singular. Pergunte a qualquer um a respeito, e a definição que se ouvirá será sempre bem próxima a "um bairro calmo, cult, arborizado, residencial, charmoso, bom para crianças e idosos."
Pois bem. Amo esta paz, tenho imenso prazer em caminhar pelas ruazinhas tranquilas, mas sempre tive em mente que não se poderia esperar nada mais deste lugar. Tudo estaria sempre em harmonia, na mais perfeita estabilidade. Se, por acaso, minha vida desse uma reviravolta, borboletas viessem ao estômago e os pés parassem de tocar o chão, com certeza não seria no Jardim Botânico. 


...

Você percebeu que, quando nos esbarramos, rolaram alguns segundos (minutos, talvez?) de comunicação não verbal? Eu, que falo através do sorriso, fiquei surpresa ao vê-lo me responder só com o olhar. Seja lá o que tenha sido dito naquele breve momento, nós dois compreendemos perfeitamente.
Dessa forma, seguiram-se dias de longas conversas, às vezes regadas a vinho, outras vezes acompanhadas de uma cervejinha gelada. Falamos sobre o bairro, trocamos dicas dos nossos cantinhos prediletos, combinamos até mesmo uma expedição para desbravarmos os picos desconhecidos do Jardim Botânico, esse lugar tão meu e tão seu, que nos separava (ao mesmo tempo em que nos conectava) com apenas quatro ruas de distância.
A cada riso, a cada palavra, eu queria mais e mais. Queria o quê? Sei lá. Só sabia que tinha vontade. Tinha tanto magnetismo entre a gente que eu já não compreendia como manteríamos nossos ímãs afastados.
Tem beijo que é capaz de despertar um tsunami dentro da gente. Acho incrível quando rola esse tipo de conexão. Entretanto, não consegui nem expressar a minha surpresa quando, muito antes da tua boca pensar em encostar na minha, os teus olhos penetrantes já me arrancaram calafrios. Você olha de um jeito intenso, parece que consegue enxergar dentro de mim.
Você veio direto daquela forminha, da Fábrica de Caras Ideais Ltda., preenchendo todos os requisitos do departamento de controle de qualidade: barba densa, jeitinho alternativo, gosto musical bacana e um toque único, daqueles que dão choque quando as peles se encostam. É sério, meu bem: eu poderia morar no seu abraço.
Prontamente, minha razão alertou: "Cuidado, garota. O último barbudo fez um estrago na casa. Seja ponderada, feche a porta e não deixe mais entrar visita." Todavia, meu coração, esse grande inconsequente, respondeu: "Foda-se, mulher! Vive tudo enquanto durar! No fim, se precisar, a gente cata os caquinhos e te restaura novamente." Simpatizei mais com o segundo conselho.
Me joguei, de olhos fechados, no penhasco. Caí numa cama macia que, se pudesse falar, contaria para o mundo certas coisas indizíveis.
Depois disso, eu nem sei mais contar direito. Me perco na ordem dos acontecimentos, da mesma forma que me perdi no teu corpo. Minha tatuagem de âncora no tornozelo movia-se de forma pouco cadenciada, para cima e para baixo, para frente e para trás, como se estivesse numa tempestade em alto mar. De fato, o que ocorria ali era bem próximo da ferocidade de um desastre natural. Ainda bem: eu gosto mesmo é do estrago.
Sempre conversamos sobre o micro-clima do Jardim Botânico. O Rio pode estar pegando fogo, as ruas de Bangu em estado de alerta para o calor de 50 graus... mas, aqui no JB, teremos sempre esse friozinho, essa temperatura amena que pede um casaco. Ou um abraço. Ou um amasso.
Lá fora, fazia frio. Todavia, emanávamos calor suficiente para derreter a nós mesmos, tornando-nos um só. E foi assim que, em meio a suor e saliva, entre absurdos sussurrados no ouvido e tudo que se pode querer, imaginar e realizar com alguém, nós nos afogamos nas profundezas do teu quarto aconchegante até o dia raiar.

Ofegante e esgotado, você olha para mim e faz apenas uma pergunta antes de cairmos em sono pesado, num encaixe perfeito:
- Onde você esteve todos esses anos?


...

Da minha varanda, contemplo o verde do Jardim Botânico. O silêncio reina. Penso sobre o quanto amo essa paz. Entretanto, um sorriso satisfeito me inunda quando lembro que, agora, posso quebrar a calmaria se assim desejar. Logo ali, a quatro ruas de distância, eu posso tomar minhas doses cavalares de caos. Do nosso caos.

Definitivamente, eu amo o meu bairro.

"Falando absurdos
Virando a noite
Perdendo o senso
Derretendo satélites"


domingo, 16 de agosto de 2015

Brilhando

Pousei em Recife sem saber o que sentiria. Da última vez em que estive ali, cortei um laço importante de forma um tanto quanto brusca. Vivi momentos intensos, porém derradeiros. Deixei contigo algumas lágrimas, um "adeus" e um punhado de palavras fortes, que expressavam claramente tudo o que eu sentia de mais puro e verdadeiro.

Entretanto, o afastamento nos proporciona o ponto de vista ideal para uma análise mais realista. Quando estamos envolvidos com alguém, passamos a tolerar certas atitudes e palavras cortantes, sem que tenhamos consciência disso. Dessa forma, quando me pus de espectadora da história de nós dois, pude perceber o quanto da minha essência foi se perdendo por ali. Sem querer, fui deixando pelo caminho toda a minha energia. Você tinha a infeliz capacidade de sugar o que havia de bom em mim.

Com o passar do tempo, a vida foi retomando o seu curso normal: me rodeei de amigos, vivi novas experiências e conheci um tanto de gente bacana. Todavia, ainda faltava alguma coisa. Faltava reencontrar o meu brilho. E eu sabia muito bem onde ele havia se perdido.
 
Cheguei em Recife de surpresa e surgi, do nada, no meio daqueles que amo. Arranquei gritos de susto, lágrimas de alegria, abraços apertados, beijos calorosos. Sorri largamente e ri até a barriga doer. Em meio à trilha sonora de Nação Zumbi, ouvi um "Muito obrigada por vir. Você não sabe o bem que me fez. Você não sabe o quanto eu te amo." E foi aí que senti meu coração, enfim, ser preenchido por inteiro.

Que delícia estar de volta à minha segunda casa, do jeitinho que era antes, do jeitinho que tem que ser para sempre: cercada de gente leve, de conversas agradáveis, de palavras doces. Longe de você e daquela nuvenzinha negra que se instaurava quando eu estava perto de ti. Nuvenzinha carregada de discussões pesadas e polêmicas, de discordâncias chatas, de palavras e assuntos que pareciam ser escolhidos com o único intuito de chocar e ferir. Recife, como é típico desta época do ano, estava chuvoso. Entretanto, no meu coração, o dia era ensolarado. Nenhum sinal de nuvens cinzentas, e, mesmo que aparecessem, minha fortaleza jamais permitiria que se instaurassem novamente.

E foi nessa atmosfera mágica que alguém me olhou bem nos olhos, abriu um sorriso carregado de ternura e soltou a mais feliz das constatações:
- Larinha, o teu brilho voltou! Agora, sim, eu vejo você inteira! A Lara de sempre: aquela que tem riso frouxo e que faz todos rirem também; aquela que chega e ilumina os locais, as pessoas, as conversas. Amiga, como é bom ter você de volta!

Bem, assim como o riso, as minhas lágrimas são igualmente frouxas, de forma que jorraram instantaneamente. Entretanto, dessa vez, não era choro de tristeza. Era de alegria, de alívio, de amor! Era da satisfação de reencontrar minha luz e de poder irradiá-la tão intensamente que contagiava até os mais frios.

No vôo de retorno ao Rio de Janeiro, vim pensando em como a vida e o tempo são, de fato, capazes de curar até as feridas mais profundas. Entretanto, precisamos também fazer a nossa parte. Devemos zelar por nossa essência, por aquilo que nos torna tão únicos e especiais. Temos que ser capazes de perceber quando estamos nos perdendo pelo caminho e, rapidamente, mudar o curso do barco rumo às águas calmas novamente. 

Foi assim que, finalmente, consegui resgatar meu brilho interior e me reconectar comigo mesma.

Olá, Lara. Bem-vinda de volta :)


sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Fossa

Não adianta fugir. Em algum momento da vida, geralmente quando tudo está às mil maravilhas, você vai se deparar com esse peculiar estado de espírito. Uns chamam de dor de cotovelo; outros de fundo do poço... eu chamo de fossa. De qualquer forma, pouco importa a nomenclatura; a sensação de estar na merda será sempre a mesma.
Os motivos também são os mais variados: ela te traiu com o personal trainer, ele percebeu que não gosta mais de você, a relação esfriou, você se apaixonou por outra pessoa ou, simplesmente, vocês se gostam muito, mas os momentos (e locais) de vida são incompatíveis. São milhares de causas possíveis que, invariavelmente, resultarão em apenas uma: não deu certo. E pronto.

E fim... Fim? Como assim, gente? Como se lida com a falta de algo (e de alguém), que antes nos fazia tão bem, nos preenchia por inteiro e, agora, simplesmente não está mais disponível? Pelo menos, não para nós, não da forma como queremos...

Estou passando exatamente por isso hoje. Agora. Sim, estou na fossa. E, sinceramente, tenho aprendido muito com ela.

Aprendi, por exemplo, que o primeiro passo é aceitá-la. Para que ignorar o meu estado de espírito? Tenho recebido muitos conselhos dos meus amigos. É comum ouvir das pessoas que você tem mais é que fingir que está tudo bem, sair linda e loira para a night e bombardear as redes sociais com registros fotográficos que demonstram a sua pseudo-felicidade, com aquele ar de "Estou ótima, meu bem. Já te superei." Tempos modernos, né? Todo mundo é obrigado a ser feliz...
Todavia, o que eu descobri com a minha tristeza é que - pasmem - ela é necessária. A dor tem me proporcionado valiosos estados de auto-reflexão. Minha mente e meu espírito agradecem. Certamente, no brilho eufórico da alegria, eu nunca me daria de presente esses preciosos instantes de introspecção. Além disso, convenhamos: esconder de si a própria tristeza é não ser sincero consigo mesmo. É uma forma de auto-sabotagem.

Outro conselho frequente é o famoso "Se afunda no trabalho, menina! Assim, você se distrai e esquece rapidinho." O problema é que, se tristeza em excesso é desequilíbrio; trabalho em demasia também. Se a pia está transbordando, é preciso fechar a torneira e deixar que a água escoe pelo ralo. Abrir outra torneira em nada vai ajudar. Pelo contrário: o estrago será ainda maior. Dessa forma, não vou jogar toneladas de trabalho ou de qualquer outra atividade no meu caminhão lotado de melancolia. Vou é correr atrás de esvaziar essa caçamba. Esvaziá-la o quanto antes, agora, ontem? Não. A tristeza tem seu próprio tempo. É importante respeitá-lo.

Admitir a fossa, todavia, não significa se entregar a ela. Esta foi a minha segunda grande descoberta dos últimos dias. A tristeza é passagem; não é destino. E, quanto mais a reconhecemos, mais rapidamente ela se esvai. A única condição para isso é que não desistamos de nós mesmos.
Dessa forma, não se obrigue a fazer o que não quiser, mas também não se prive de fazer o que gosta. Não cancele o chopp de quinta-feira com as amigas, não deixe de jantar com seus pais e nem pense em faltar à academia. Saia, dance, ria, beba, durma, reze, corra, beije... continue a viver!
Repare que, hoje, dói menos que ontem. Daqui a pouquinho, já não vai doer mais. Perceba que, à sua volta, ainda ficou um monte de amor, daquele de primeira qualidade. Afinal, amor de família e amigos é para sempre.
Confie em você e na sua capacidade de se encantar com os outros. Confie, também, no seu próprio poder de encantamento. Retribua com um sorriso sincero aquele carinha da época da faculdade que, depois de um esbarrão ocasional na rua, diz com toda a doçura do mundo que “você está ainda mais linda!”. A vida se encarrega desses e de outros (re)encontros...
Há um universo de possibilidades por aí afora. Aquele cara, especificamente, parece ser a combinação perfeita de personalidade, beijo e encaixe (sim, aquilo mesmo) e você acha que nunca mais encontrará nada igual? Bem, não vai mesmo! Mas por que querer algo igualzinho, se podemos fazer tudo diferente? Quem disse que, nesse mundão, a proporção do amor é 1 pra 1? É infinito pra infinito!
Portanto, aceitemos a dor, sem que nos entreguemos a ela. Paralelamente, deixemos que os olhos se abram para as infindas possibilidades de conexão ao redor.
É isso que eu aprendi. É isso que eu tenho feito.

Êta, fossa produtiva!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Pontilhado


O tempo passou rápido demais. Quando menos percebemos, já estávamos aqui e agora. A poucos dias de nos encontrarmos novamente. Há quarenta dias desde a última vez que nos vimos, nos ferimos, nos abrimos e enfim partimos, cada um para o seu lado, mas ambos repletos de esperanças e promessas de um recomeço.

Certa vez, você disse que a distância acabaria por esfriar as coisas. Discordo. O que esfria é o comodismo, o medo da entrega, o orgulho. O que esfria é a maneira simplista de encarar emoções complexas, como a saudade, a incerteza, a insegurança. O que esfria é a ausência do "sentir".

Nada contra o seu desapego. Acho até saudável - para você. O problema é quando se simplifica demais as coisas, inclusive os sentimentos. Você acaba tornando tudo muito superficial. É claro que a distância atrapalha. É muito mais fácil quando se pode tocar, beijar, olhar bem nos olhos. Mas não sejamos desonestos com nós mesmos: precisamos assumir que a grande responsabilidade é nossa. Nós temos o controle de nossas vidas e devemos levar toda a culpa se não mais conseguimos torná-las convergentes.

Nada contra a sua essência racional e fria. Acho até uma boa forma de proteger - a você mesmo. O problema é que você deixa lacunas em mim, no meu coração. Dois corpos não ocupam um mesmo espaço simultaneamente. Mas deixe que um deles saia, nem que seja por alguns instantes, e outro já poderá preencher o vazio. 

Eu nunca quis que o teu contorno, antes tão nítido nos meus pensamentos, virasse uma linha pontilhada. Tenho medo de que se apague. Ainda bem que eu escrevo, aqui, a história de nós dois. Não quero que fiquemos sem memória. 

"Uma reta é um conjunto infinito de pontos. Um ponto é uma entidade geométrica adimensional, ou seja, um ponto não tem altura, comprimento ou largura."

Imagine, pois, que a vida é uma reta, uma infinita linha do tempo. Nela, em meio a milhões de pontos, está a nossa história, tão intensa, tão absurda, transpondo qualquer dimensão. É esse singular pontinho que devemos preservar, não importa quanto tempo passe. Dentre tantas histórias, existirá, para sempre, a nossa. Única. Melodramática. Linda. 

Me ajuda a zelar pelo nosso pontinho.



Do amoroso esquecimento


Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mario Quintana 

domingo, 21 de junho de 2015

Você de volta

No dia em que você ligou, eu estava ao avesso. O coração, ferido e apático, pareceu levar uma injeção de adrenalina ao reconhecer sua voz do outro lado. 

- Lara?
- Oi...
- Você ainda está em Recife?
- Como você sabe que eu vim?
- Te vi no barzinho, anteontem. Por um momento, pensei que você havia olhado para mim. Concluí que optou por não me cumprimentar.
- Eu nunca faria isso! Eu não te vi. Juro!
- E se não fosse sem querer, você me veria?
- Oi? - Coração quase escapando pela boca.
- Eu quero te ver. Conversar contigo. Pode?
- Sim... claro que pode.
- Hoje?
- Pode ser amanhã? Hoje, o dia está um pouco confuso... - "Confuso? Hoje, você é o retrato do apocalipse, mulher!", disse o meu coração.
- Pode, sim. Você tá hospedada na casa da sua tia, certo? Te busco às 15h00.
- Como você sabe que eu estou lá???
- Até parece que eu não te conheço, Lara.

Você só aparece assim, de surpresa. Da última vez, ressurgiu das cinzas, brotou no meu apartamento a três dias da minha partida e disse um punhado de coisas que deveriam ter sido expostas antes, muuuuito antes.

Todavia, lá estava eu, num domingo cinza, às 15h07, correndo pelas escadas. Atrasada, como sempre.
E lá estava você: a mesma barba, o mesmo tom da pele bronzeada, a mesma placa de carro de Olinda-PE... e aquele sorrisinho de canto de boca, TÃO seu. "Cacete. Ele continua lindo." - constatou meu coração.

- Secando a franja, certo? Por isso, o atraso.
- Acertou.
- Suponho que você vá gostar da idéia de um cafezinho nesta tarde chuvosa.
- Acertou novamente. Acho que sou previsível demais...
- Não é não. Eu é que te conheço demais.
Sabe-se lá porque, fui tomada por um arrepio danado depois dessa última frase. Preferi, então, me manter em silêncio.

Eu, olhando para a xícara, tentando decifrar algum desenho na espuma que se formara no capuccino. Você, olhando para mim. Eu nem me atrevia a tentar decifrar o que se passava nos seus bastidores.

- Surpresa com a minha ligação?
- Muito.
- Estava um barulho danado... você estava num bar?
- Sim. Fui tomar um choppinho com as meninas.
- Suas amigas ainda me chamam de "O Louco do Crepe"?
- Sim! hahahahha
- Odeio esse apelido!
- Meu bem, quem é que propõe, como primeiro encontro, levar a menina para comer um crepe? E quem é que fura a programação do bendito crepe umas 10 vezes seguidas? Só pode ser O Louco do Crepe!
- hahahahahaha! E, quando finalmente fomos à creperia, você pediu...uma salada!
- Foi só pra contrariar...
- Eu sei que foi. Eu te conheço, Lara. Já disse.

Você e essa mania de me deixar sem resposta! Eu, que sempre falo tanto, sempre tão cheia de opinião e de razão (ok, nem sempre), me vejo sem palavras diante de algumas colocações tuas.

- Você não esquece isso, né?
- Passei a odiar essa palavra. "Incrível". Mas, enfim... onde está ele? O que faz você, num domingo à tarde, sem ele? E comigo... - Seu sorrisinho de canto de boca, agora, ganhava um tom de deboche.
- Tendo em vista alguns acontecimentos recentes, concluo que o "Cara Incrível" não é tão incrível assim...pelo menos, não comigo.
- Eu sabia! Se ele fosse assim tão foda, tinha conquistado mais do que uma simples menção, num texto que foi inteirinho só meu!
- Garoto, você não muda mesmo, né? Onde você guarda todo o seu ego? Porque eu tenho cer-te-za de que não cabe aí dentro. - Mesmo irritada com os seus comentários idiotas, eu não consegui segurar o riso. Você sempre me fez rir e sorrir. "E foi exatamente isso que fez você gostar dele, mulher!" - disse meu coração intrometido.
- Cabe muita coisa aqui dentro, Lara. Cabe, por exemplo, uma saudade danada de você. Foi por isso que eu te procurei. Quando vi que você estava em Recife, não quis perder a oportunidade de te dizer... - Seu silêncio veio na hora mais inapropriada possível. "Dizer o quê, criatura???" - meu coração, sucumbindo de curiosidade.
- Dizer o quê?
- Que eu queria você na minha vida. Do jeito que tudo começou. Daquela forma leve que a gente tinha de viver tudo o que rolava entre nós. Da última vez em que nos vimos, conversamos bastante e nos reconciliamos. Pelo menos, foi o que eu pensei. Entretanto, você foi embora para o Rio de Janeiro e parece que nos perdemos novamente. Eu gosto de você, é muito bom estar contigo. Você é uma pessoa ímpar. E, quando estávamos em paz, nós nos dávamos tão bem! Eu sinto a sua falta. Não quero que você simplesmente passe pela minha vida. Eu quero que fique. Assim como eu te conheço, você também me conhece bem o suficiente para saber que, neste exato momento, eu estou me despindo de todo o meu orgulho para poder te falar tudo isso.

UAU. Por essa, eu não esperava. Eu estava tão machucada até então... e todas aquelas palavras pareciam simplesmente me curar aos poucos. 

- Sim, eu te conheço. E você não imagina o quanto estou feliz com tudo isso aqui: a tua presença, essa conversa, as risadas, a tua sinceridade. Nossa, isso me fazia MUITA falta. VOCÊ faz falta. Eu gosto muito de você. Entretanto, hoje, é um gostar um pouco diferente. Um bem-querer mais maduro. Tem muito mais carinho do que qualquer outra coisa.
- Em resumo, você quer dizer o quê?
- Que eu também te quero na minha vida. Eu ainda quero rir muito contigo, dividir nossas histórias. Eu quero vir a Recife e ter mais tardes gostosas como essa. Quero que você vá ao Rio e que a gente vá a lugares lindos, cheios de paisagens bacanas para encher teu Instagram de vida de novela. Eu descobri que a gente funciona melhor assim, do jeitinho que estamos agora: sem cobranças, sem brigas, sem corações partidos. Nós funcionamos muito bem como amigos.
- Só amigos? E pronto?
- Por ora, sim. 
- Sendo assim, você continua na minha vida?
- Claro! Dou a minha palavra. E você? Promete que não vai fugir de novo?
- Nunca mais.

E, dessa forma, o tempo passou sem que percebêssemos. Teve tanta troca entre a gente! De energia, de sorrisos, de assuntos e de carinho.
E eu finalmente compreendi que, nem sempre, teremos as pessoas da forma como queremos. E não adianta insistir. Forçar a barra só vai afastá-las de nós. Mais maduro e eficaz é tentar encaixá-las de outra forma em nossas vidas. Se alguém realmente importa para nós, só não vale deixarmos que escape.

Você é assim para mim. Agora que eu entendi como podemos dar certo, não te largo mais. Bem-vindo de volta à minha vida. "E, dessa vez, para sempre." - diz o meu coração, finalmente, em paz.






terça-feira, 9 de junho de 2015

Sobre mágoa e perdão

Após a tempestade, tento juntar os pedacinhos de mim. É tarefa difícil, dado o terremoto que acabou por destruir minhas fortalezas e teve seu epicentro em você.
...

Quando se vive uma decepção dessas, é normal escutarmos conselhos e opiniões (revoltadas, certamente) de amigos e qualquer pessoa ao nosso redor. Isso é sinal de que somos amados e que há um monte de gente que se preocupa conosco. Ainda bem!
Entretanto, para que se tranquilizem os meus, gostaria de informá-los que - surpresa! - eu também me amo. E, justamente por nutrir esse amor-próprio, é que tomarei minhas decisões baseadas unicamente nas minhas vontades. Sim, eu vou fazer o que eu quiser, e não o que acham que deve ser feito.

E eu decido perdoar, simplesmente porque considero o perdão uma das atitudes mais nobres e belas da vida. Perdoar é difícil, mas é libertador. É desprender duas almas aflitas pelas mágoas e os erros, e dar a elas o alívio necessário para que se curem em paz. É sentar na tua frente, olhar fundo nos teus olhos sem brilho, e constatar que a dor que você trazia ali era a maior lição que a vida poderia te dar. 

Todavia, perdoar não é esquecer. E, justamente por isso, eu não esqueço do desalinho que era a vida ao teu lado. Enquanto você achava que entre nós havia harmonia de sobra, eu achava que o que sobrava mesmo era a falta: de zelo, de cuidado, de carinho. Faltou, acima de tudo, parceria...

- Mas eu sempre disse que te achava uma parceirona, pra todas as horas!
- Bem, deixa então eu te contar um segredo: parceria só existe quando é mútua, quando há troca. Quando se anda um do lado do outro. Você sempre caminhou a passos largos e, no auge do seu egoísmo, não percebeu que acabou me deixando para trás.
- Eu... eu simplesmente não me dei conta disso.
- Você não enxergou, embora eu tenha sinalizado tantas vezes. Entretanto, era tanta frieza, que se criou uma barreira impenetrável ao seu redor. Um escudo para te proteger de quê? De sentir?
- Mas eu sinto! 
- Mas nunca me mostrou que sentia.

Pois bem. Hoje, SENTIR é tudo que eu desejo a você. Sendo assim, torço para que tenha a humildade necessária. Torço para que encontre em seu caminho gente que derreta o gelo que há em ti. Torço, principalmente, para que você encontre a si mesmo.
Com todo o meu carinho, eu te desejo muito amor. Amor e poesia.

É isso, meu bem. Faltou poesia em você. Detalhes, leveza, subjetividade.
E eu? Eu sou toda poesia, eu sou feita de sentir e de viver!

...

A tempestade cessou, e eu acabo de localizar o meu barco. Entretanto, dessa vez, não vou insistir para que você entre, como fiz todas as vezes. Dessa vez, eu sugiro que faça a travessia a nado. Suando, sofrendo, pensando e...crescendo. Não sou cruel, muito menos vingativa. Se te abandono em alto mar, é porque avisto terra firme logo adiante e tenho certeza da sua capacidade de alcançá-la. Não posso garantir que estarei na praia, à sua espera... Mas esteja certo de que acompanharei, de longe, a sua jornada. Sempre com muita ternura.

E, ao final de tudo isso, terei o maior orgulho de vê-lo mais maduro, mais humano e evoluído, e dizer bem alto contigo: "Missão cumprida!".